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Nov/Dez 2019
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Mulher

Saudades de mãe

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    Faz parte do processo natural da vida em família os filhos saírem de casa em determinado momento, seja para estudar, trabalhar, casar... Em geral, essa fase é importante para nós, pois, começamos a enxergar nossos filhos como pessoas responsáveis e capazes de tocar as suas próprias vidas sem nós. Apesar de termos consciência disso, nem sempre essa hora é fácil, os sentimentos ficam confusos, ora alegria/ tristeza, ora confiança/preocupação...

    Com a saída da minha filha, de 17 anos, de casa, para fazer intercâmbio, tenho refletido muito sobre esse momento. E percebido que saudade é um sentimento frequente entre nós pais de adolescentes e representa nostalgia por um tempo (que não volta mais) em que nós éramos o centro do universo deles e que eles precisavam de nós em tempo integral. Olhar as fotos daqueles bebezinhos rechonchudos e dependentes que se transformaram em jovens independentes pode parecer difícil, porém é inevitável e necessário que os filhos saíam de casa e até mesmo que em algumas horas se oponham a nós, pois, isso é fundamental para o crescimento e a formação da personalidade deles.

    Claro que não é fácil a despedida, dá vontade de dizer: “Não vá, você é tão jovem”, porém nos ouvimos dizer: “Vai dar tudo certo, eu confio em você”, pois sabemos que os braços que não se abrem são letais para o amor. Mas como é dolorido ficar! A saudade de quem fica é maior do que a de quem parte. Quem parte vai explorar novos mundos, cheios de maravilhas desconhecidas. Quem fica permanece em um espaço vazio. E basta uma lembrança, uma palavra, um aroma, um sorriso preso numa foto, uma canção... E pronto! Lá vem aquele sentimento vasto onde cabem inúmeros outros: alegria, doçura, amor, realização, esperança...

    Daí nos lembramos que nossos filhos não são nossos filhos, são os filhos de Deus que temos, provisoriamente, a guarda e que nosso papel é justamente preparálos para a vida, para vôos solo. Ou como diria Kalil Gilbran... “Vós sois os arcos, dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. O arqueiro (Deus) mira o alvo no infinito... Que vosso encurvamento seja vossa alegria.” E realmente não há sentimento melhor do que perceber que os valores éticos e espirituais com os quais alicerçamos a formação deles estão todos sendo usados. Percebemos crescimento deles pelo tom da voz, pelas palavras, pelos novos sonhos.

    Com a saída dos filhos de casa é hora de investir no casamento. Não é justo viver a vida exclusivamente em função dos filhos e acreditar que o casamento só exista na presença deles. Não podemos viver nossas vidas “para” os outros, mas sim “com” os outros. Nós não possuímos os nossos filhos e não podemos (nem devemos) viver a vida deles. Eles saem de casa, mas não saem da gente. Inclusive, ao contrário do que muitas mães pensam, isso é ótimo, a relação fica muito melhor, mais adulta, desaparecem os conflitos do cotidiano, porque a distância aproxima o afeto e só guarda o melhor de tudo.

    Tem um poema lindo de Ana Jácomo que expressa muito bem os meus sentimentos. Ela fala sobre a saudade de mãe, que presente o filho estar bem mesmo a distância, fala de uma saudade sem dor, sem culpas. Saudades de dar um abraço apertado, e depois soltar de novo para que ele continue a sua jornada.

    “Era uma saudade feita de um punhado de sorrisos floridos no jardim da memória. Era pássaro que cantava na árvore da minha gratidão. Era um mar que estendia ondas suaves de ternura por toda a orla dos meus olhos. Era uma saudade que acende um mundaréu de estrelas no meu coração... Era daquelas saudades que durrubam cercas e desenham pontes. Era daquelas saudades que desembrulham lembranças, que deixam o instante da gente todo perfumado de Deus. Aquela era dessas saudades generosas que bordam sol no tecido da alma com os seus lindos fios de amor...”

    Sei que com a saída das filhas de casa a saudade será uma constante em minha vida, porém também sei que independente de onde elas estiverem, estarão sempre presentes em meus pensamentos e no meu coração.

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    Gizele Rabelo
    Terapeuta Oriental (Feng Shui, Astrologia Chinesa, Toque Terapêutico) (35) 3522-0339

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