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Janeiro/Março 2020
Janeiro/Março 2020

Homem

2011

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    – Eu não sabia que você era tão supersticioso!

    – Mas não é superstição. Isso é uma questão de matemática! É só fazer a conta. Acompanhe meu raciocínio: dois mais zero, dois, mais onze, treze. Pronto! Treze é número de azar... Então dois mil e onze, já viu, né?

    – E por que não pode ser dois mais zero, dois, mais um, três, mais um, quatro?

    – Quatro mais onze quinze, menos dois, treze. Tá vendo, estamos perdidos.

    – E você ainda diz que não é supersticioso!

    Essa manipulação dos números que você está fazendo apenas justifica o seu pessimismo.

    – Não é pessimismo nem superstição, é uma constatação. Não é possível que você não veja. É uma mensagem clara como um dia de sol. Vinte menos onze, nove, mais dois, onze, mais um, doze. Mais um, treze. Viu, viu. Acredita agora?

    – Acredito que você está fi cando louco com essa numerologia capenga. Quem disse que a soma dos números do ano pode reger o destino das pessoas, ou determinar se este será um ano bom ou ruim?– Não critique aquilo que você não conhece, disse ele sério. Você não sabe as forças que estão envolvidas aqui e os mistérios que os números carregam, suas interações e o poder dos resultados. Um mais um pode ser muito mais que dois!

    – Numerólogo e filósofo. Era só o que me faltava.

    – Sabe aquela regrinha da matemática que diz que a ordem dos fatores não altera o resultado?

    – Sei.

    – Não altera o resultado, mas interfere na ordem cósmica universal. Você move um número aqui na terra e um átomo de Hidrogênio deixa de se converter em Hélio no interior de uma estrela de Andrômeda.

    – Não diga! Andrômeda?

    – Pra você ver... Mais um átomo perdido na cadeia de reações universal.

    – Ainda bem que tem muito hidrogênio no universo, né?

    – Então você concorda que o número dois mil e onze tem muito a nos dizer?

    – Ô!

    – Nossa! Como eu não enxerguei isso antes? Sabe aquela conta que você fez e deu quatro? Então, quatro é a soma dos algarismos do número treze. Está tudo ali, só não vê quem não quer.

    – E como você pretende se proteger do seu vaticínio?

    – É sempre bom pular sete ondas, comer romã e jogar as sementes por cima do ombro, acender uma vela e como Janeiro é o mês um, somando ao resultado da soma dos algarismos do ano que é treze, temos quatorze. Somando os dois algarismos encontramos o número cinco, o que indica claramente que devemos nos manter afastados do número oito. Já em fevereiro, os cuidados devem ser redobrados pois...

    – Você pretende mesmo me falar sobre os doze meses?

    – Doze... Doze...

    – O que foi agora?

    – Dois mil e doze, o ano que vem...

    – Só nos resta esperar que seja melhor que dois mil e onze.

    – Como pode ser melhor se em dois mil e doze o mundo vai acabar?

    O que realmente acabou foi sua paciência e ele começou a falar em voz alta números aleatórios. Milhões, bilhões, centenas, unidades, dízimas periódicas, e todas as constantes que lhe vinham à cabeça diante do olhar estupefato do seu amigo que levava freneticamente o dedo em riste contra os próprios lábios numa tentativa desesperada de deter sua atitude irresponsável.

    Enquanto isso, no interior de uma estrela de Andrômeda, bilhões de átomos de Hidrogênio explodiam antes de se converterem em Hélio. Mas ninguém notou...

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    Magela Oliveira
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