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Janeiro/Março 2020
Janeiro/Março 2020

Homem

Romance

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    – Um romance? Você pretende escrever um romance? Espantou-se ele.

    – Um romancezinho... Condescendeu o jovem escritor.

    – Não há romancezinhos, rapaz. Romances são romances, são densos, pesados e extensos, asseverou o mestre. Ele era um leitor contumaz, conhecedor e admirador dos clássicos que compunham sua biblioteca invejável.

    Não passava um dia sequer sem a companhia de um bom livro, sem permitir que sua imaginação percorresse os caminhos traçados pelos autores, vivendo as emoções, os conflitos, os dramas e as alegrias que grandes histórias, contados por grandes escritores, podem trazer.

    Mas fora surpreendido pela audácia daquele jovem. De onde aquele menino tirara tanta segurança para se aventurar numa jornada tão arriscada? Escrever um romance! Vejam só! Um romance. Como se isso fosse a coisa mais natural do mundo, pensava o velho, com irritação e uma ponta de ciúme.

    Logo ele, que sempre incentivava a leitura e a criação literária, agora repreendia o rapaz pela sua pretensão. Mas tudo tem limite, justifi cava-se, mentalmente. Começar com um romance? E
    involuntariamente fazia comparações mentais entre si mesmo e o jovem que o interpelava com um sonho na cabeça e um sorriso nos lábios. Duas coisas que ele perdera ao longo de sua caminhada vida afora. Ele também fora jovem um dia e sonhara escrever seu romance, mas nunca saíra alardeando aos quatro ventos suas intenções. Mesmo porque nunca tivera certeza de estar pronto para uma empreitada dessa envergadura. Agora, ali estava ele, diante de um jovem com a segurança que ele nunca tivera, estendendo-lhe um calhamaço que trazia nas mãos, pedindo candidamente que opinasse sobre sua obra.

    O velho, dobrado pelos anos, recebia aquilo como uma bofetada que mexia com seus brios. Diante daquele garoto ele percebeu que havia se preparado a vida inteira para escrever um romance; Havia estudado, lido e relido os clássicos, começado e abandonado várias vezes seu projeto, esperando o momento ideal, a inspiração que nunca chegara.

    Fora necessária a presença desse rapaz para que ele enxergasse a verdade e sentisse o peso da realidade vergandolhe mais ainda do que o tempo já fizera. Sentiu-se fraco e covarde. Nunca se dedicara tanto quanto sua pretensão exigia. Reconhecia agora que escondia na sua busca infinita pelo conhecimento um subterfúgio para seguir adiando o início e principalmente o final de sua obra. Sua obsessão era postergar a realização do seu sonho, mascarada na preparação para iniciá-lo.

    Era um procrastinador. E ele, defi nitivamente não saberia lidar com isso. A ciência e a consciência de sua fraqueza pareciam cruéis demais para um homem que julgava conhecer plenamente a vida e as pessoas, e percebia, subitamente, que não conhecia nem a si mesmo. Nesse instante extremo de sua existência, o destino, esse eterno zombeteiro, põe um travessão na sua história e o jovem pergunta inocentemente:

    – Quantos livros o senhor já escreveu?

    Ele pensou em mentir e disser vagamente: – Vários! E dar a conversa por encerrada e escafeder-se dali e esconder-se para sempre sob sua insignifi cância literária. Pensou em sair correndo, mas as velhas pernas não lhe permitiriam esse recurso. Optou então pela saída honrosa. Olhou com firmeza o jovem e disse, com dignidade, a verdade que agora o consumia:

    – Nenhum, meu filho. Nenhum!

    E foi-se embora, levando nas mãos aqueles originais escritos sob o signo da juventude e do sonho, transbordantes de expectativas, para se meter em sua biblioteca e na companhia de Proust, Mario Quintana, Voltaire, Fernando Sabino, Karl May, Guimarães Rosa, Hemingway e tantos outros, contar finalmente a história de um homem que passou toda sua vida tentando inutilmente escrever um romance.

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    Magela Oliveira
    Publicitário Agência Wikimídia
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