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Janeiro/Março 2020
Janeiro/Março 2020

Homem

Reminiscências

  • Eles já estavam no quinto ou sexto chopp quando um deles, depois de fixar o olhar por um instante num ponto indeterminado fora do bar onde estavam reunidos, disse:

    – Eu sempre quis ter um cachorrinho! Os outros três ocupantes da mesa olharam simultaneamente para ele, desconfi ados. Depois se entreolharam, perplexos, quando notaram que ele poderia estar falando sério. Naquela mesa só se debatiam temas mais importantes e complexos como a relação de proporcionalidade entre o busto e o quadril das jovens que rebolam em programas de televisão e bailes funk, a evolução das suas dimensões e formas, a implicação na sensualidade feminina e sua influência no domínio definitivo do mundo pelas mulheres. E de repente ele vem com essa história de cachorrinho?

    – Que papo é esse? Perguntou um deles depois de mais um gole.

    – É isso mesmo, quando eu era menino queria ter um cachorrinho, mas meus pais me negaram dizendo que dava muito trabalho e que incomodava os vizinhos... Enquanto falava seu semblante se transformava e refl etia uma tristeza profunda, emersa das camadas que a vida vai aos poucos depositando sobre as lembranças das gentes. Os companheiros, que já buscavam algo engraçado com que pudessem ridicularizá- lo, foram dissuadidos pela força da verdade contida naquela declaração e, compungidos, beberam num brinde silencioso àquela revelação do amigo. Subitamente um deles olhou para aquele mesmo ponto indefinido e declarou:

    – Eu queria tocar oboé!

    – Oboé? Você?

    – Eu. Mas não é você que toca pandeiro quando tem pagode aqui no boteco?

    – Pra você ver... Sempre quis aprender música clássica, mas em casa diziam que música não levava a nada...

    – Meu cachorro ia se chamar Anúbis.

    – Então foi por isso que seus pais não deixaram, disse um deles tentando com um gracejo aliviar o clima de ressentimento que os envolvia, mas ninguém achou graça. Estavam compenetrados, mergulhados nas frustrações de um passado que até a pouco parecia sepultado. Mas assim como fantasmas, certas lembranças teimam em exsurgir de suas covas para assombrar aqueles que julgavam tê-las matado e enterrado.

    – Eu queria ser comandante de navio. Conhecer o mundo inteiro, mas não consegui nem passar no concurso da marinha...

    – Oboé, ou talvez fagote.

    – Virar vinte seis graus a estibordo, máquinas a todo vapor. Ele estava de pé, como um capitão de longo curso, ordenando aos seus marujos de sua ponte de comando imaginária. Os outros dois se perfi laram a ele e ergueram seus copos solidariamente enquanto olhavam complacentes para o outro aguardando sua revelação.

    – Que foi? Estranhou ele.

    – Pode falar, ou vai dizer que seu sonho sempre foi ser escriturário?

    – É!!! Não, né. Mas... Tá bom, eu sempre quis ser pintor. Daqueles que levam uma vida desregrada, revolucionários, mas geniais em sua arte. Levantou-se e ergueu também seu o copo e disse:

    – À arte! E o outro:

    – À marinha mercante! E o terceiro:

    – À música clássica! E o do cachorrinho, que foi quem havia começado toda aquela história e que afi nal era o único com possibilidades de ainda realizar o seu sonho:

    – A conta. E foram embora, cada um arrastando pela calçada suas frustrações, que a bem da verdade, eram muito maiores que as bundas daquelas mulheres...

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    Magela Oliveira
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