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Nov/Dez 2019
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Mulher

A influência do outro

  • Viver bem e livre da tirania dos outros é um desafio para muitos e implica em buscar conscientemente a competência emocional. A questão central é aprender como construir uma estrutura de personalidade capaz de filtrar os estímulos externos para bloquear os ruins, receber os bons e saber diferenciá-los.

    O ideal é começar esse aprendizado na infância, pela construção do pensamento lógico e pelo desenvolvimento da inteligência emocional, coisas que podem ser ensinadas e aprendidas. O problema é que essa educação depende de nossos pais, que não são, na maioria das vezes, especialistas em educação e psicologia infantil, e muitas das vezes capazes de resolver seus próprios problemas emocionais. Pois eles, como nós, também “carregam” dramas da infância que os influenciaram para sempre.

    Infelizmente a incompetência emocional, às vezes, é reproduzida na vida adulta, e isso acontece quando não há a formação de uma personalidade bem estruturada, competente para se deixar influenciar apenas por aquilo que agrega, que nos faz bem, e não por imagens e influências negativas, às vezes destrutivas.

    O problema é que ninguém, ninguém mesmo, tem a personalidade tão bem estruturada a ponto de só aceitar influências positivas, sendo refratário àquilo que não nos convém, que faz sofrer. A busca desta competência é uma obsessão da psicologia. Leva tempo e depende da maturidade e de certa dose de sabedoria. Ser maduro significa permitir que as influências, agradáveis ou não, nos ajudem a construir conceitos, conhecimentos e percepções que serão benéficos na medida em que nos ajuda a pensar com qualidade.

    Ser maduro significa assumir a autonomia por seus sentimentos sem transferir para os demais a responsabilidade pela consequência de suas ações e por sua eventual infelicidade. Na maturidade ganhamos a chance de sermos influenciados de maneira positiva porque aprendemos a ler os textos escritos pela vida, o que é uma conquista e tanto, por isso mesmo tão almejada e tão difícil de ser alcançada.

    Ainda bem jovem li uma peça de Sartre (não sei a tradução do título para o português, em francês, textualmente signifi ca portas fechadas) que tinha uma frase que me marcou muito: “O inferno são os outros.” Sartre com essa afirmação revela que as pessoas com quem convivemos são fontes permanentes de influências e julgamentos e que isso faz de nossa vida um tormento. Alcançar o “céu” seria justamente a capacidade de ser impermeável às opiniões e julgamentos dos outros.

    Hegel criou a ideia da dialítica, da vida em movimento permanente. Dizia que “...uma semente deve morrer para nascer a planta, da mesma forma que um conceito velho precisa morrer para dar lugar a um novo.” E assim é conosco, às vezes temos que desaprender para aprender e nesse movimento permanente de construção da realidade, que não é estática, não há como não considerar a opinião dos outros (afi nal é dessa interação que construímos a nossa noção de realidade). O que precisamos é saber transformar os estímulos em forças construtivas, o que só pode ser feito com o império da razão. Não podemos, jamais, ser escravos do julgamento alheio e a todo momento ter de projetar uma imagem, que acreditamos ser a melhor, mas que nem sempre é o que nós somos de verdade e com isto, amputar, irremediavelmente, o nosso eu, a nossa personalidade.

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    Gizele Rabelo
    Terapias do auto conhecimento e da maturidade
    (35) 3522-0339

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