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Janeiro/Março 2020
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Comunidade

Ao mestre com carinho

  • Professor Chiquito; a enciclopédia de Passos.
    Professor Chiquito; a enciclopédia de Passos.

    Paulo Freire dizia que “o professor é aquele que gosta de viver”. Gostar de viver é ter o que Mário Quintana chamava de “gosto de estrelas na boca” ou em outras palavras, amor. Conhecemos mulheres e homens mais do que especiais em nossa peregrinação enquanto estudantes. Alguns são famosos, mas a grande maioria são de anônimos. Anônimos para o mundo, mas que iluminam a mente e o histórico de seus alunos. Para homenagear a classe, escolhemos um homem que deixou uma marca indelével na vida de muitos passenses. Suas aulas inspiraram muita gente e seu conhecimento transbordava e construía pontes. Estamos falando do Professor Francisco Soares de Melo, 88 anos de idade, o professor “Chiquito”.

    Professor Francisco Soares de Melo, carinhosamente chamado por muitos de “profº Chiquito” é considerado um “consultor da educação”. Ele é, como muitos costumam dizer, o Google vivo da cidade. Qualquer dúvida na gramática as pessoas procuravam por ele, e ele, por sua vez, as ensinava na maior simplicidade, gerando ainda mais admiração e apreço nas pessoas. Discreto e reservado, pode-se dizer que profº Chiquito é o “professor – coruja” de Passos: homem sábio e a quem todos confiavam e pediam conselhos.

    Profº Chiquito, no alto de seus 88 anos, tem hoje Alzheimer, doença do cérebro que produz a perda das habilidades de pensar e raciocinar. Mas o que esse homem fez pela educação dos estudantes das décadas de 50, 60, 70, 80 e 90 não está escrito em lugar algum. O professor funcionou como um facilitador no acesso de informações. Um amigo que auxiliou o sujeito a conhecer o mundo e seus problemas, de forma que os alunos pudessem caminhar com liberdade de expressão e, consequentemente, de ação.

    Casado com Célia Freire de Melo, tem sete filhos (quatro homens e três mulheres). Lecionou na cidade quatro disciplinas: Português, Latim, Linguística e Filologia Românica, passando por várias escolas: Colégio Estadual, Colégio de Passos, Colégio Imaculada Conceição (CIC) e Fundação de Ensino Superior de Passos (FESP). Profº Chiquito também é autor de livros, dentre eles, um de poemas: “Chama Inquieta”, além de publicações sobre noções de análise sintática e outros manuscritos.

    Eugênia, Olga (sobrinha), José, Luiz, Célia (esposa), Chiquito, Ana Teresa, Fernando, Maria Blandina (filhos) e Ednéa (sobrinha).
    Eugênia, Olga (sobrinha), José, Luiz, Célia (esposa), Chiquito, Ana Teresa, Fernando, Maria Blandina (filhos) e Ednéa (sobrinha).

     

    Como intelectual de seu tempo, colaborou escrevendo para diversos jornais e periódicos locais e nacionais, como os jornais “O Sudoeste”, e “Folha da Manhã”, de Passos, “O Diário”, de Belo Horizonte, “Jornal do Comércio”, do Rio de Janeiro e esporadicamente para a revista “A Ordem”, de Petrópolis, que conforme esclarece o também professor de Português José Freire (Chiquitinho), filho do professor Chiquito, tinha uma orientação católica. No time da revista ainda escreviam os intelectuais: Alceu Amoroso Lima, cujo pseudônimo era Tristão de Ataíde, Gustavo Corção e Dom Marcos Barbosa.

    Professor Chiquito correspondia com muitos pensadores e críticos literários da política e da literatura de todo o Brasil. As cartas, segundo a revista Foco Magazine pôde observar são inúmeras. Alguns nomes de peso como a do jornalista e escritor, Otto Lara Resende, do Governador Milton Campos, do poeta Alfonsus Guimarães Filho e do político e advogado Pedro Aleixo estão guardadas no baú da família Freire.

    O conhecimento deste homem era tamanho que ele não ficou preso apenas às questões educacionais. Professor Chiquito também apreciava e discorria muito bem sobre política e religião, sendo o fundador ofi cial e o primeiro presidente da Sociedade São Vicente de Paulo na cidade. Na política, foi o fundador da UDN (União Democrática Nacional), o partido das cabeças pensantes de Passos. E também chegou a fazer muitos hinos para as instituições do município. O comovente Hino a Passos é dele e do violinista José Marciano Negrinho. Também compôs hinos para Minas Gerais, para o Colégio Tiradentes e um para a Nossa Senhora da Penha de Passos. Segundo José Freire, “as pessoas encomendavam muitos hinos e manuscritos e ele prontamente as atendia.”

    Ser professor

    Escolher o caminho da docência no Brasil, é de fato, um desafio hoje em dia. Elevada carga horária, muitos alunos por sala de aula, condições de trabalho inadequadas, baixos salários e a responsabilidade de não apenas dar conteúdos a crianças, jovens e adultos, mas de transformá- los em cidadãos.

    Preparar o aluno para a vida significa ensinar a ele, além do universo do conhecimento, valores. Talvez a escola possa ser um terreno fértil em que as sementes de um novo tempo floresçam, mas o professor... ah! O professor em primeiro lugar tem que gostar de ser professor e isso Francisco Soares de Melo gostava! E como gostava...

    O Professor com o amor de sua vida, Dona Célia Freire de Melo.
    O Professor com o amor de sua vida, Dona Célia Freire de Melo.

    Em um trecho do prefácio que Pedro Junqueira Bernardes faz ao professor Chiquito, no livro “Antologia Chiquito”, de 2004, organizado pelo professor de História, Antônio Theodoro Grilo e com apoio da Prefeitura de Passos e FESP, ele diz: “Realmente não se sabe o que mais admirar na pessoa do Prof. Chiquito: se a grandeza do ser humano; se o reconhecido saber do homem das letras; se a sabedoria do grande humanista ou se o senso de valor do inegável pedagogo. Ficamos com o mestre, com o pedagogo. Ficamos com ele porque o Professor resume em si a grande dimensão humana; o saber específi co da arte ou da ciência que se quer transmitir; a sabedoria do humanista e os verdadeiros valores que se devem eleger na formação do espírito juvenil.

    Graciela Nasr

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