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Janeiro/Março 2020
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Em Foco

Antônio Barreto

  • Em nossas montanhas tem um poeta

    Antonio Barreto em foto de Eduardo Trópia - 2000.
    Antonio Barreto em foto de Eduardo Trópia - 2000.

    Casado com Graça Sette, professora, Barreto tem uma fi lha: Larissa, médica pediatra em Varginha. Ele mora em Belo Horizonte desde os 18 anos, quando partiu de Passos para prestar vestibular, trabalhar e encontrar novos rumos. Versátil também na vida acadêmica, cursou História, (Fafi -BH), Letras (UFMG-Uemg), Desenho de Projetos (INAP/UTRAMIG) e Engenharia Civil (UFMG-Fumec). Como engenheiro projetista e calculista, na década de 1980, foi trabalhar no Iraque e em Por mais que se busque palavras, difícil é defi nir e delinear a obra de nosso escritor e poeta, Antonio Barreto. Nasceu em Passos aos 13 de junho de 1954 e aqui viveu até os 18 anos cercado de histórias, causos e aventuras, sobretudo as literárias que compõem uma saga contagiante. Bom de prosa. Bom de versos. Barreto é assim. Escritor e poeta de um talento nato, versátil e inventivo, ganhador de importantes prêmios na literatura. outros países do oriente Médio e África, exercendo também as atividades de tradutor e intérprete em outras empresas multinacionais, no exterior. Em 1993 abandonou a engenharia defi nitivamente, para dedicar-se somente à literatura e a projetos educacionais da língua portuguesa. Sua obra publicada é vasta: 27 títulos já lançados, 3 por lançar ainda esse ano; 4 em 2011; 27 participações em antologias nacionais; dezenas de contos e poemas publicados em jornais e revistas literárias (impressas ou eletrônicas) do Brasil e de vários países. Com a obra O Papagaio de Van Gogh, ele recebeu no fi nal do ano passado o concorrido Prêmio “Literatura para Todos” do MEC, com edição recorde no Brasil: 300 mil exemplares que serão distribuídos em todas as escolas públicas do país.

    Aplaudido e respeitado pela crítica, aos 27 anos recebeu do poeta Carlos Drummond de Andrade o reconhecimento como importante poeta das letras brasileiras. Certamente, em nossas montanhas fi cou escondido um pouco de seu talento e de sua imaginação fértil. Afi nal, foi aqui que ele sentiu, ainda muito menino, que tinha um “pé” fi ncado na literatura. Nesta entrevista da Foco, Barreto fala sobre a sua infância e adolescência em Passos, entre outros assuntos.

    Antonio Barreto, estudante, aos 9 anos, no Educandário.
    Antonio Barreto, estudante, aos 9 anos, no Educandário.

     

    FOCO - Quando você sentiu que tinha um “pé” na literatura? Como foi?

    AB - Minhas avós Zindinha (Adozinda Ferreira de Carvalho), Madrinha (Sebastiana Almeida Barreto) e minha mãe sempre me contavam muitas histórias. Não as que estavam nos livros da carochinha, mas as histórias de suas próprias vidas e famílias. Eram histórias e casos “de ouvido”, que eu achava fantásticas, quase inacreditáveis. Daí, com a cabeça sempre nas nuvens e um pé na Lua – até hoje não sei explicar como – comecei a me achar apto, também, a “inventar coisas”. Oralmente, recontava para os tios e primos minhas aventuras imaginárias... Enfi m, sem saber, eu já brincava de ser poeta.

    FOCO - Como foram a sua infância e adolescência em Passos? O que lhe inspirava mais?

    AB - Tive uma infância privilegiada e uma adolescência extraordinária, em Passos. Naquele tempo a gente fazia piquenique, pescarias e nadava pelado nos rios, cachoeiras e “corguinhos” da região. Brincava de queimada, pique-esconde, bolinha de gude, maria-sai-da-lata, mamãe-da-rua e tantas outras. Assistia às matinês do cine Roxy ou do Alvorada...e lia muitos gibis! Aliás, devo dizer com louvores: isso me foi propiciado por meu primo Marco Ajeje: talvez o maior gibizeiro de Passos! E não seria exagero dizer que, por causa dele (e dos gibis que me emprestava) acabei virando escritor. Cá entre nós...a primeira culpa é dele! Depois vem a Gilda Parenti, minha adorável professora de Português.

    Antonio Barreto com Graça Sette (esposa) e Larissa Bracarense (sua fi lha).
    Antonio Barreto com Graça Sette (esposa) e Larissa Bracarense (sua fi lha).

    FOCO - Qual a melhor imagem de Passos em sua vida?

    AB - A melhor “imagem” de Passos, em minha vida, é a da Turma da Upes (União Passense dos Estudantes Secundários), o memorável e inigualável grupo de estudantes aos quais me juntei, no início da década de 70. Costumo dizer que “sou o que sou porque eles me o foram”. Ali, naquele velho casarão da praça da Matriz, nosso bunker - nós, os Sem-TV e Sem-Internet daquele tempo – e enquanto o Monsenhor Matias esbravejava contra a minissaia, o esmalte e o batom – adolescíamos com certa dignidade (e medo)...Pois ainda corriam os anos de chumbo da ditadura militar. Era um tempo de pouca grana e muita censura, pouca conversa em casa e muita curiosidade lá fora. Já éramos seguidores e colecionadores do O Pasquim, fãs do Henfi l e seu memorável casal de aranhas, Hélio e Jacy, que serviam de símbolo e inspiração para nossas mancomunações antiestéticas (risos). Gibi também não podia cair nas nossas mãos, como já disse: devorávamos tudo, avidamente. E me arrisco a dizer novamente: “começamos a escrever (e a crescer com isso), por causa do gibi”. O gibi era a nossa televisão. O movimento, o slow ou o speed motion ficavam por conta da capacidade de se ativar, em maior ou menor grau, a memória afetivo- digital de cada um de nós.

    Era ali, portanto, naquele velho casarão alugado, que nos reuníamos. No mínimo para bater papo e paquerar, ouvir Beatles, Rolling Stones, Bee Gees, Credence, Jovem Guarda, Geraldo Vandré e Raul Seixas: seleção de primeira, que era também jogada pelos alto-falantes no footing da Praça da Matriz, onde o “rela” rolava solto entre fl ertes, segredos. Fuxicos, cigarro mentolado, caipirinhas e algumas corujas desorientadas.

    Barreto com a Turma da UPES-1972.
    Barreto com a Turma da UPES-1972.

    FOCO - É, no casarão da “Upes” na Praça da Matriz vocês fi zeram história...

    AB - Foi ali que produzíamos um programa de rádio para a ZYN-4, o Upes em Questão. Foi ali que aos 16 anos ajudei a fundar e editar os jornais lítero-estudantis Liba e O Dica (sempre sob os efl úvios do Pasquim. E, logo em seguida, com a formação do “Grupoema”, a revista literária Protótipo foi uma das pioneiras da chamada imprensa nanica, alternativa ou “movimento marginal” da literatura, na década de 70, chegando a ser distribuída e até estudada em alguns países da América Latina.

    FOCO - E as leituras? E as descobertas?

    AB - Me lembro que nessa época eu lia, lia e relia tudo que caía em minhas mãos: de bulas de remédio ao Almanaque Biotônico Fontoura; das histórias do ‘Sítio do Picapau Amarelo’ de Monteiro Lobato às viagens futurísticas de Júlio Verne. Mas me lembro também dos outros mestres em minha vida: o Chiquitão [Professor Francisco Soares Mello]; o Cóssimo Baltazar de Freitas que punha curativo, emprestava chuteira gramatical e ainda oferecia, de gruja, um Camilo Castello Branco, um Guerra Junqueiro ou um Eça de Queirós em doses homeopáticas. Então, veio também o Alvimar Costa (outra pessoa fundamental para mim e o grupo da UPES), pai do genial Marco Túlio Costa. Alvimar abriu sua fantástica biblioteca para nós! Então, o mundo fi cou pequeno, muito pequeno...E vieram chegando os clássicos: Maupassant, Tolstoi, Balzac, Zola, Oscar Wilde, Stendhal, Shakespeare, D.H. Lawrence, Tchecov e tantos outros. E atrás deles os pós-clássicos: Hemingway, Fitzgerald, Kafka, Sartre, Simone de Beauvoir, Cortazar, Garcia Márquez de tantos.

    FOCO - É verdade que num papo com Carlos Drummond de Andrade ele lhe encorajou para continuar na literatura?

    AB - Eu tinha 27 anos e tinha acabado de voltar do Iraque. Morria de vontade de conhecer pessoalmente o meu ídolo maior: ele, o grande poeta da “pedra no meio do caminho”! Na verdade, já havíamos trocado correspondência. Depois que CDA leu O Sono Provisório – via Affonso Romano e Silviano Santiago, que levaram o livro pra ele -, o poeta me encheu a bola numa carta (aliás, chegou a fazer algumas linhas sobre minha poesia, em uma de suas crônicas do JB). Aí passamos a trocar fi gurinhas. Lá um belo dia o Jéferson de Andrade, grande amigo – e o cara que me deu o primeiro emprego em Beagá – já era editor da Record, no Rio, onde Drummond publicava as suas obras. O Jéferson me liga e fala: “Quer conhecer o hôme?” Quase desmaiei. E fui pro Rio, mais a Graça, minha mulher. Lá chegando, encontramos também com o Roberto Amado (sobrinho de Jorge Amado) que era doidinho pra conhecê-lo, que nem eu. Foi um encontro inesquecível.

    FOCO - E como foi a conversa?

    AB - Conversamos bastante. De repente falei que estava meio desanimado com “esse negócio de ser escritor, poeta, num país de ágrafos e analfabetos...”Enfi m, reclamei da falta de leitores, no país, para o gênero poético. Então ele me respondeu o seguinte (e nunca mais esqueci disso):

    -Olha, meu rapaz, se você fosse jogador de futebol, com 27 anos nas costas e ainda não tivesse sido convocado para a Seleção Brasileira de Futebol, eu te daria razão. Mas você, nessa idade, já faz parte da seleção Brasileira de Poesia, não percebeu ainda?

    Me arrepiei! – E aí ele completou o meu nock-out, me mandou pra lona de vez! -

    De mais a mais, normalmente, um poeta só se faz depois dos 60 anos bem vividos! De forma que, aos 27 anos, você já tem 33 anos de frente, no páreo com os outros convocados! Aí rimos a valer. Naquele dia também ouvi do mestre, na despedida, algo que nunca mais me esqueci. E que procuro sempre colocar em prática na minha vida: “Nenhuma literatura vale mais do que uma boa amizade!”

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    Arlete Soares Porto

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