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Janeiro/Março 2020
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Comunidade

Longevidade

  • Dr. Diogo Kallas Barcelos - geriatra.
    Dr. Diogo Kallas Barcelos - geriatra.

    Quando uma pessoa chega a uma fase avançada da vida precisando de atenção especial, muitas famílias se adequam a nova realidade revezando com os próprios familiares, outras necessitam de uma instituição especializada ou recorrem a “cuidadores” de idosos. O geriatra Diogo Kallas Barcelos diz que cada caso deve ser avaliado antes de qualquer decisão.

    Com um número cada vez maior de idosos, o Brasil vem se preocupando com a qualidade de vida dessa população que está alcançando, cada vez mais, maior longevidade. Dados demográficos divulgados pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) indicam que no ano de 2010 o número de idosos com mais de 80 anos - entre homens e mulheres - era de 2,5 milhões de pessoas, aproximadamente. Em 2020, serão cerca de 5 milhões. O número de muito idosos cresce rapidamente. O Instituto Brasileiro de Geografi a e Estatística (IBGE) - na Síntese de Indicadores Sociais (SIS) do ano passado - comprova que a longevidade do brasileiro está mesmo aumentando, com a esperança de vida tendo crescido numa média de 3,1 anos num período de dez anos (2009/2010), passando para 76,2 anos.

    Só que a idade traz consigo os problemas comuns do envelhecimento, quando não aparecem também doenças debilitantes do físico e da mente, gerando um quadro de fragilidade. Em muitos casos, o idoso se torna uma pessoa dependente, carente de cuidados especiais. A solução, muitas vezes, é encontrada em casa, com os próprios familiares se revezando na assistência ao parente, mas há casos em que é preciso contratar profissionais capacitados e até recorrer a casas de internação de longa permanência para idosos.

    De acordo com Diogo Kallas Barcelos, médico geriatra, quando a família chega a esse ponto é necessário consultar um especialista para obter o diagnóstico preciso do parente de idade a fim de receber as orientações que vão ajudar a escolher a opção mais adequada para todos. “É melhor procurar um geriatra para analisar a situação do idoso e verificar suas reais demandas”, disse Diogo Kallas.

    Uma das alternativas à internação do pai, mãe, tio ou irmão da terceira idade em instituições de longa permanência é promover o cuidado em casa mesmo. Há casos em que os próprios familiares se organizam e eles mesmos provêm o idoso de suas necessidades. Outras famílias, no entanto, contratam profissionais qualificados para a função. São os “cuidadores” de idosos, profissão que ainda carece de regulamentação no Brasil, mas que é uma realidade há vários anos.

    O Dr. Diogo Kallas é coordenador de uma equipe de profissionais que se capacita para atender a esta demanda crescente, o NEEPA (Núcleo de Estudos do Envelhecimento de Passos). Desde abril de 2009 esse grupo tem como um de seus objetivos justamente o auxílio aos cuidadores e familiares do paciente, através de uma rede multiprofissional formada por médicos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e psicólogos.

    “Pretendemos aumentar o número de integrantes e formar grupos de apoio aos cuidadores de idosos. Quanto maior o número de pessoas capacitadas para trabalhar esse projeto, melhor”, disse. Com o NEEPA, o Dr. Diogo espera ajudar os parentes do paciente e seus cuidadores a entenderem melhor a terceira idade, suas necessidade físicas, psíquicas e sociais, eliminar determinadas atitudes que denigrem aquele que necessita de atenção especial e também mostrar a importância da geriatria para o envelhecimento ativo e independente.

    “A preocupação com o idoso tem crescido, sim, não só na cidade, como no país inteiro. Temos visto os resultados, embora a passos curtos ainda, porque o assunto não é tão abordado pela sociedade. O idoso ainda sofre muita discriminação. Só damos valor a partir do momento em que temos um idoso em casa”, disse.

    Segundo o médico, uma das primeiras providências do grupo é sensibilizar a família para a realidade da terceira idade que, por um equívoco, muita gente acredita ser um regresso à infância. Quem trata como criança uma pessoa que entrou numa fase da vida em que as doenças degenerativas das funções cerebrais são mais comuns e a deixa em situação de dependência, na verdade, está cometendo um equívoco que, para o Dr. Diogo, chega a ser humilhante. “As necessidades de um idoso e de uma criança são bem diferentes”, afirma o médico.

    Anice e seu pai Jamil Simão; opção por cuidar em casa.
    Anice e seu pai Jamil Simão; opção por cuidar em casa.

    Retribuição para quem já cuidou da gente 

    Dois dias depois da morte da mãe, Delvira Simão, os irmãos Júlia, Anice e Patrick já enfrentavam outra situação complicada. O pai, com 88 anos de idade, começou a apresentar sintomas de depressão e do mal de Alzheimer. Se antes ele andava com dificuldade, precisando de bengala e até de andador, agora, já não conseguia sair da cama. A partir de uma avaliação médica e depois de algumas internações hospitalares, a família resolveu contratar cuidadoras e assistir em casa, 24 horas por dia, o pai, Jamil Simão. “Ele não apresentava doença grave. Parou de andar de uma vez. Teve um pequeno AVC (derrame) e começo de Alzheimer”, explica uma das filhas, a professora Anice Simão Silveira.

    A hipótese de internar o pai em instituição especializada sequer foi cogitada pelas filhas, já que a família tinha condições para prestar a ele as devidas atenções em casa. “Ele nos deu uma educação, um berço, uma estrutura familiar. Então fazemos tudo o que podemos para retribuir o que ele nos deu”, disse. “Eu, meu marido Marcos, Júlia e seu marido Eduardo trabalhamos com a função de mantê-lo em casa”, explica.

    Esse trabalho é executado por duas cuidadoras, ambas técnicas de enfermagem, que se revezam para administrar a alimentação via sonda, os remédios e a higiene de Jamil Simão. De acordo com Anice Simão, a escolha das profissionais foi baseada em termos técnicos, justamente para, além do conforto, evitar que o pai sofra danos comuns a pessoas acamadas, proporcionando-lhe qualidade de vida.

    “Todas que olharam o papai tiveram um carinho muito grande. Nós ficamos muito tranquilos com elas, embora a gente esteja todo dia lá, acompanhando a rotina das cuidadoras, que nos passam todo acontecimento. Eu o deixo, despreocupada, aos cuidados delas”, diz a professora.

    Por outro lado, Anice Simão reconhece que nem todo mundo tem condições financeiras para manter um idoso acamado em casa e optam por interná-lo em uma instituição especializada. “O doente em si representa um gasto muito grande, então a gente compreende muito bem as famílias que colocam, por exemplo, o parente num lar de idosos.” Cada caso deve ser avaliado.

    Enio Modesto

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