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EDUCAÇÃO - O entusiasmo pela arte de ensinar

  • Numa época em que os valores básicos do ser humano se mostram corrompidos, uma educadora trabalha para resgatar o que anda em falta, mas que é a chave para a juventude se espelhar: modelos de referência.

    A Psicóloga e Mestra em Educação Edith Lins Eto: “Pais e professores não podem se furtar de serem modelos para as crianças e jovens, sob o pretexto de serem amigos daqueles pelos quais, na verdade, são responsáveis.”
    A Psicóloga e Mestra em Educação Edith Lins Eto: “Pais e professores não podem se furtar de serem modelos para as crianças e jovens, sob o pretexto de serem amigos daqueles pelos quais, na verdade, são responsáveis.”

    Professores descontentes com a carreira, alunos mal educados em casa, violência em escolas, bullying, são alguns problemas do complicado sistema educacional brasileiro dos últimos anos. Uma complexidade de fatores contribui para essa difícil realidade e só uma mudança de atitude, de maneira que envolva família e escola, pode ajudar os professores a resgatarem o que foi perdido no decorrer do tempo: o prazer pela arte de ensinar.

    O resgate deste prazer está relacionado à capacidade do professor de desenvolver, antes de tudo, vínculos positivos com seus alunos. Tais vínculos são construídos através da confi ança, respeito e exercício da autoridade competente. Exercer esta autoridade não é “mandar”, mas algo como “ajudar a crescer”, expressão que vem da origem latina do verbo. “É necessário que o professor p q g perceba cada aluno como pessoa única, identifi cando seus pontos fortes, estimulando-os e ajudando-lhes na superação de seus pontos fracos. Tarefa nada fácil, mas extremamente gratifi - cante”, explica a psicóloga e educadora Edith Lins Eto.

    Nascida em Passos há 59 anos, Edith é uma das fundadoras de um dos primeiros estabelecimentos de ensino infantil da cidade, a Escola Infantil Narizinho, em 1978. Antes, ela havia estudado na Escola Estadual Professora Júlia Kubitscheck, o Colégio Estadual, onde concluiu o ensino médio em 1969. Seu curso superior de psicologia foi em Belo Horizonte, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Formada em 1976, Edith voltou a Passos para começar a trabalhar, fundando junto com sua colega de faculdade, Regina de Mont’Alverne Neto, a CLIPIN, uma clínica de psicoterapia infantil.

    Pouco depois, em 1978, incentivadas pela professora Gilda Parenti, as duas psicólogas criaram a Escola Infantil Narizinho, a terceira da rede particular na cidade para crianças. Quando Regina voltou para Belo Horizonte, Maysa Eto Maia, irmã de Edith que já trabalhava na escola como professora do maternal, tornou-se sócia. As duas foram responsáveis pela escola até o ano de 1984.

    “Não existe mais o respeito pela figura do professor e, infelizmente, ele também, muitas vezes, não se faz respeitar.” - Edith Eto

    De volta à capital após a experiência com a escola infantil, a psicóloga continuou a fazer diversos cursos de especialização profissional e vem trabalhando na área educacional, seja como professora - até mesmo em instituições de ensino superior -, coordenadora de cursos, palestrante ou mesmo escrevendo artigos. Edith Eto é também co-autora e organizadora da Coleção Promove de Educação Infantil, da Rede Promove (2002/2003).

    A opção pelo ensino infantil veio junto com sua formação em psicologia, através da qual pretendia trabalhar no aspecto preventivo dos problemas emocionais, orientando pais e professores em sua função de formadores de seres humanos. Para a educadora, a prevenção é a medida mais eficaz para evitar que difi culdades emocionais decorrentes de relacionamentos inadequados comprometam o desenvolvimento da criança ou do jovem. “Pois é na infância que se forma o alicerce do futuro adulto. Minha experiência tem comprovado esta verdade”, afi rma.

    Como o curso de Psicologia não é tão abrangente na área da Educação, em 1982, ela decidiu complementar sua formação fazendo um curso de Mestrado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com ênfase na educação infantil. Depois vieram vários outros cursos de especialização profi ssional, a maioria direcionada para a compreensão do processo do ensino/aprendizagem e sobre as infl uências das relações interpessoais nesse processo. Relações essas, segundo Edith Eto, determinantes em nossa constituição como sujeitos.

    Endossando a afirmação de Dorothy Briggs (autora de A Autoestima de Seu Filho/ editora Martins Fontes), de que “a base da saúde emocional é a autoestima”, Edith Eto explica que um aluno com uma autoestima negativa terá dificuldade de estabelecer boas relações em casa e muito menos na escola. Segundo ela, uma autoestima positiva é construída através da qualidade das relações das crianças e dos jovens com aqueles que desempenham papel signifi cativo em suas vidas: – pais/professores, família/escola.

    “A ideia de que a vida é um bem e que merecemos ser felizes, se transmite acreditando nisso. Todo o nosso processo futuro se antecipa em casa e na escola. O respeito dos pais e professores pelas crianças e jovens modela o respeito que terão pelos outros e por si”, justifi ca. Daí, reitera ela, a importância fundamental das mensagens transmitidas pelos adultos para as crianças e jovens na convivência diária.

    “O respeito dos pais e professores pelas crianças e jovens modela o respeito que terão pelos outros e por si.”

    “Mensagens que reforcem o que eles têm e fazem de bom, e o quanto são amados, contribuirão decisivamente para a construção de uma autoestima positiva. O contrário, também é verdadeiro”, enfatiza a educadora.

    A equipe da Escola Narizinho, em 1984; (a partir da esq.) Wânia Lins da Silva, Susery Nefer Costa Zaparolli, Sandra Agelune da Silveira Mattar, Silena de Oliveira Teixeira, Anice Simão Silveira, Lúcia Brandão Lemos Andrade, Maysa Eto Maia e Ivani Alves; atrás, Edith Lins Eto e Silvia S. Oliveira Maia.
    A equipe da Escola Narizinho, em 1984; (a partir da esq.) Wânia Lins da Silva, Susery Nefer Costa Zaparolli, Sandra Agelune da Silveira Mattar, Silena de Oliveira Teixeira, Anice Simão Silveira, Lúcia Brandão Lemos Andrade, Maysa Eto Maia e Ivani Alves; atrás, Edith Lins Eto e Silvia S. Oliveira Maia.

    Edith Eto reconhece que ser educador no mundo atual é uma tarefa árdua que exige um enorme investimento pessoal e uma vontade férrea para vencer barreiras. “Estamos órfãos de modelos de pessoas públicas honestas, idôneas, íntegras”, afirma, acrescentando que a consequência disto é a perda de princípios básicos que devem nortear a vida social, como generosidade, compreensão, cooperação, respeito pelo outro.

    “Tudo isso se reflete na Educação. Não existe mais o respeito pela figura do professor e, infelizmente, ele também, muitas vezes, não se faz respeitar”, analisa a educadora. Por isso, o educador tem de se situar no meio deste cenário, e, após analisá-lo e avaliá-lo, se perguntar se é mesmo esta a profissão que quer para a sua vida. “O resgate de sua autoridade está diretamente ligado à positividade de sua resposta a esta questão”, observa Edith.

    Enio Modesto

    MENSAGEM A PAIS E MESTRES

     

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    Neste terceiro milênio, uma velha verdade precisa ser resgatada e Edith Eto cita o renomado Içami Tiba: “Filhos precisam de pais para serem educados, alunos de professores para serem ensinados.” Professores que lhes ensinem a fazer sínteses, a buscar evidências, a discernir o conhecimento verdadeiro do falso. Pais e professores não podem se furtar – sob o pretexto de serem amigos daqueles pelos quais são responsáveis – de serem modelos, de apontar-lhes os limites necessários, e de vivenciar princípios básicos de boa convivência. Só desta forma nossas crianças e jovens poderão se desenvolver de uma forma sadia, situarem-se no mundo, e o tornarem melhor.

    A opção da psicóloga Edith Eto pela educação, através de um trabalho para prevenir os problemas sócio-emocionais na infância, não foi apenas uma decisão profi ssional, mas também, de se realizar aprendendo e ensinando, o tempo todo. E, depois de mais de três décadas, a educadora está longe de perder o ânimo: “Tenho paixão pelo que faço e acredito no que transmito às pessoas. Eu me coloco inteira em tudo que faço. Sou transparente. O que alimenta a minha alma é uma fé inabalável na capacidade do ser humano de desenvolver-se e transcender-se. (...) O entusiasmo é fundamental para ser educador. ‘Ensina-se mais o que se é do que o que se sabe’, como já disse um autor desconhecido. Endosso inteiramente esta premissa”, define-se a psicólogo-educadora; que se coloca à disposição para maiores esclarecimentos através do email: [email protected]

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