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Janeiro/Março 2020
Janeiro/Março 2020

Homem

Mamãe Noel

  • O velho ficou atônito. Os duendes petrificados. Eles sabiam que aquele momento chegaria, mas, ainda assim, foram pegos de surpresa.

    Impassíveis, ainda na entrada da fábrica de brinquedos na Lapônia, jovens executivos envergando ternos muito bem talhados, levando cada um uma pasta de couro preto e expressando em suas fisionomias todo o desprezo que sentiam por aquela estrutura produtivo-administrativa, ordenaram arrogantemente que os duendes saíssem imediatamente, pois tinham assuntos importantes e inadiáveis para tratar com o Sr. Noel.

    Diante da inexorabilidade do progresso e sentindo-se sem forças para reagir, o velho de longas barbas brancas fez um gesto vago com as mãos para que os duendes saíssem e seguiu com os executivos para um pequeno escritório, porém aconchegante e acolhedor. Depois de atiçar o fogo na lareira, sentou-se em sua grande cadeira de espaldar alto que ficava atrás de sua mesa de trabalho coberta por cartas de crianças de todo o mundo.

    .

    Encarando os executivos ele se preparou para ouvir a proposta que já desconfiava saber qual era. Sabia estar velho e ultrapassado e que os brinquedos que fabricava com a inestimável ajuda dos duendes não mais satisfaziam os desejos das gerações mais novas. Prova disso era a vertiginosa redução do número de cartas recebidas nos últimos anos e consequente explosão das mensagens eletrônicas recebidas por e.mails e torpedos em textos muito curtos e diretos, com pedidos de presentes que extrapolavam a capacidade tecnológica de sua singela fábrica. Não havia mais a saudação amorosa e a indelével e divertida declaração da criança de que havia sido boazinha, obediente e que se esforçara na escola naquele ano que findava, e por isso merecia aquela bola de capotão, um caminhãozinho de madeira ou aquela boneca que fala mamãe. Coisas simples, coisas de crianças, enfim, e com suas letrinhas ainda claudicantes, agradeciam demonstrando certeza de que seriam atendidas.

    Agora chegavam pedidos quase indecifráveis, cheios de abreviaturas e arrogância, exigindo Ipods e Ipads, Xbox 360 Kinect e PS3, Nintendo Wii e placas aceleradoras de vídeo e outras formas de aniquilar a infância, impossíveis de serem atendidos pelo Papai Noel e seus ajudantes.

    – Queremos comprar suas renas, disse, sem rodeios, aquele que parecia ser o líder dos executivos. E continuou, com uma naturalidade desconcertante:

    – Nosso departamento de marketing já conseguiu desmitificar o natal, e a venda dos produtos que nos interessam, ou seja, aqueles que dão mais lucro, explodiu. A engenharia de produção já tem os meios tecnológicos para atender a demanda, e nossa penetração na mídia de massa manipula o consumidor, especialmente os mais jovens a buscarem sempre a versão atualizada dos equipamentos, criando uma necessidade real incontrolável de satisfação de uma necessidade artificial, mantendo a demanda crescente e a estabilidade dos níveis de produção. Só nos falta resolver a questão da distribuição.

    – E vocês querem levar meu trenó e minhas renas? Indagou incrédulo o Papai Noel.

    – Por um preço justo, claro!

    – E quem faria a distribuição, quem conduziria o trenó?

    O executivo falava com grande satisfação e entusiasmo:

    – Estamos pensando em uma figura feminina, seguindo a tendência mundial de ocupação de cargos importantes pelas mulheres.

    – Gorda?

    – Claro que não! Queremos uma mulher jovem, com um corpo perfeito, saudável, com uma sensualidade contida, que represente, para o público consumidor feminino, o ideal de beleza.

    – E os duendes?

    – Bem, nossa corporação tem um programa de recolocação com cursos e treinamentos e eles podem ser facilmente recontratados para atuarem em circos e programas de domingo da TV.

    O Papai Noel olhou para aqueles homens e questionou mentalmente se eles não haviam, também, sido crianças um dia. Entristeceu-se com a insensibilidade que dominava o natal e virou-se, como se contemplasse a vista através da janela. Não queria que vissem seus olhos marejados. Lá fora viu a neve, os fiéis duendes tilintando de frio e suas vigorosas renas prontas, como sempre, para mais uma jornada encantando e satisfazendo as crianças que ainda acreditavam. Tinham apenas presentes simples, quase artesanais para distribuir, mas feitos com amor e com intuito de manter viva nas crianças a chama da esperança.

    Virou-se e seu olhar renovado irradiava confiança e uma força incontestáveis. Disse decididamente:

    – Enquanto houver uma só criança que acredite, uma só que seja, não desistirei.

    Os homens a sua frente, tentando demovê-lo, falavam quase ao mesmo tempo que sua fábrica era economicamente inviável, que era suicídio insistir em um modelo desatualizado e gritavam:

    – Ninguém mais acredita em Papai Noel.

    E o velho, serenamente:

    – Se vocês acham que ninguém acredita mais, passem nos correios e experimentem a emoção de ler as cartinhas que as crianças escrevem para o Papai Noel e se quiserem sentir uma felicidade verdadeira, satisfaçam o desejo de uma delas. E concluiu:

    – É isso que me move!

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    Magela Oliveira
    Publicitário Agência Wikimídia
    e-mail: [email protected]

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