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Nov/Dez 2019
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Em Foco

Engenheiro passense faz parte do Conselho de Associação Internacional

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    Ele é muito bem casado com Wânia e tem dois lindos filhos: Gabriel e Luisa. Atualmente, mora em São Paulo, mas residiu em várias cidades. Em Belo Horizonte graduou-se em Engenharia Elétrica pela PUC-MG. Em Campinas, na UNICAMP, fez mestrado em Automação de Sistemas Elétricos de Potência. Mas a vida escolar começou na terra natal, em Passos, no antigo Grupo Escolar Wenceslau Braz. Estudou também no Polivalente e no CIC.  O engenheiro Luciano Macedo Freire, 48, vivenciou grandes e importantes mudanças do setor elétrico brasileiro. Entre um compromisso e outro, da sua agenda lotada, Luciano nos concedeu essa entrevista. Conheça a seguir a trajetória desse executivo e premiado engenheiro.

    FOCO - Você é natural de uma região que teve parte de suas terras inundadas para a geração de energia. Essa realidade o atraiu ao escolher a sua profissão?

    LMF - Terras inundadas! Na minha infância não tinha a menor idéia do isso pudesse significar. A tia Lurdinha Magalhães morava em Furnas e íamos sempre visitá-la. As festas juninas dela eram imperdíveis. Brincávamos a valer naqueles imensos gramados sempre muito bem cuidados e arborizados e o melhor, as casas não tinham muro! Que liberdade! Era um paraíso para as crianças. Ai que saudades! Como meu tio trabalhava na usina, vez ou outra pintava uma visita onde me sentia todo importante e um privilegiado. A usina me fascinava pela grandiosidade, pelo desafio que sua construção representava; desviar um rio, construir toda aquela contenção, a barragem de concreto e a engenhosidade das máquinas e do processo: entra água e sai energia elétrica, não é fantástico? E a sala de controles com todos aqueles painéis, luzes e botões, que fascinante! Era um misto de desafio, perigo e complexidade que sempre me atraiu. Creio que lá no fundo esses passeios na casa da tia Lurdinha devem ter me influenciado na escolha.

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    FOCO - Entre as atividades iniciais que exerceu em grandes empresas do setor elétrico no país e as que exerce hoje, como executivo, qual delas mais o atrai?

    LMF -Difícil dizer. São momentos diferentes da carreira e os guardo igualmente com muito carinho. Quando comecei a trabalhar na CPFL, recém saído do mestrado na UNICAMP, era uma espécie de engenheiro pesquisador e tive a oportunidade de colocar em prática o que havia estudado no mestrado e fora tema de minha tese. Foi um enorme desafio. Por cinco anos, junto com professores da UNICAMP e técnicos da CPFL, desenvolvemos programas computacionais a serem utilizados nos centros de controle com o objetivo de dar mais segurança e confiabilidade às manobras operativas. Tínhamos um time de craques e fomos pioneiros nesta implementação. Ganhamos até prêmio! Não dá para esquecer e tenho muito orgulho dessa fase de “engenheiro” na minha carreira.

    O setor elétrico passou por profundas transformações. Vieram as privatizações e a criação das agências reguladoras entre elas a ANEEL. Com a liberalização do setor, competição e eficiência eram as palavras de ordem para as empresas do setor. Na cadeia do setor, a famosa GTD, geração-transmissão-distribuição, surgiu um novo agente: o comercializador de energia elétrica. Eu não podia deixar esse desafio passar em branco e me mudei de mala e cuia para lá. Fui o segundo funcionário do que é hoje a segunda maior trading de energia do Brasil. Comecei trabalhando com avaliação de risco de contratos de energia e um ano depois fui convidado a assumir a gerência da mesa de operações. Foi uma guinada na carreira: de engenheiro para mercador de energia; da área técnica para as áreas comercial e gerencial.

    Dois anos depois fui para a Eletropaulo cuidar de todos os clientes corporativos da empresa. Era responsável pelo relacionamento comercial com todas as grandes indústrias da capital e ABCD e todas as grandes redes varejistas. É como estes atendimentos VIP que hoje os bancos fazem, Cliente Ouro, Prime, Personnalité. Montamos uma equipe de gestores de clientes invejável e botamos para quebrar. Lançamos um Plano de Fidelização de Clientes que foi um sucesso e mudou por completo a imagem da empresa que no inicio estava muito arranhada.

    Finalmente, chegamos ao Conselho da CCEE, Câmara de Comercialização de Energia Elétrica. A CCEE é responsável pela operação comercial de todo o setor de energia elétrica brasileiro. Fazendo um paralelo com o setor financeiro é câmara de compensação do setor elétrico. Todos os contratos do mercado atacadista são ali registrados, contabilizados e liquidados. Participam na Câmara, todos os gerados (Furnas, por exemplo), distribuidores (CEMIG), comercializados e os grandes consumidores que podem livremente negociar a compra de energia, os chamados “consumidores livres”. A missão dos conselheiros é resolver conflitos, propor melhorias nas regras e procedimentos de comercialização, aprimorar a transparência e dar mais eficiência ao mercado brasileiro de energia elétrica. Em outubro DE 2011, fui convidado a integrar também o conselho da APEx – Assossiation of Power Exchange, uma associação internacional que congrega os maiores operadores de mercado de energia dos cinco continentes.

    FOCO - O Brasil tem um capital natural abundante para a geração de energia. Essa riqueza é bem administrada?

    LMF -Esta pergunta não tem uma resposta direta. A questão energética hoje em dia é matéria multidisciplinar com motivações técnicas, ambientais, sócio-cuturais e políticas. Buscar a convergência dessas vertentes é quase impossível. Veja os contornos que tomaram as discussões sobre Belo Monte, onde até avatares internacionais entraram em cena. De fato, se restringimos à eletricidade, nossa matriz energética atual é 95% oriunda de fonte renovável com forte predominância da hidroeletricidade. É de fazer inveja aos europeus, americanos, chineses e tantos outros que lutam para tornar suas matrizes menos emissoras de gases de efeito estufa e gastam fortunas para tanto. Somos fartos em recursos hídricos, de biomassa, eólicos e solar e temos um dos menores custos de produção de energia do mundo. Entretanto, quando se fala em custo de energia ao consumidor final nossa vantagem cai por terra e vamos ao outro extremo, onde temos uma das energias mais caras do mundo. Os impostos e taxas setoriais praticamente dobram o custo de produção da energia.

    As fontes renováveis impõem também outros desafios como a imprevisibilidade, a intermitência e a sazonalidade. Tal como em culturas de milho ou café, onde a produção se concentra na safra, o vento, a biomassa, a radiação solar e a água também são sazonais. A grande diferença é que podemos estocar milho e café e regularizar sua oferta ao longo do ano, mas não podemos estocar eletricidade em sua forma final para consumo, não de forma economicamente viável. A cadeia de produção da energia elétrica é exemplo perfeito do conceito just in time onde o que está sendo consumido num determinado instante é igual à produção neste mesmo instante. No caso de vento e radiação solar nem mesmo na forma primária é possível sua estocagem. Já pensou em armazenar vento? Entretanto, é possível armazenar água em reservatórios de tal forma que em períodos de seca seja possível manter a geração para atendimento da demanda que, via de regra, não diminui. No passado, construímos vários reservatórios como o de Furnas, um dos maiores e mais importantes para a regularização da geração hidráulica no país. Hoje em dia, questões ambientais e sócio-culturais têm superado questões técnicas e não temos construídos reservatórios. É o que acontece com as recentes usinas de Santo Antônio, Jiral e Belo Monte, todas na Amazônia. Em período de seca, como não possuem reservatórios com capacidade de regularização, a previsão é que a produção cai para 10% de suas respectivas capacidade e certamente precisarão ser complementadas com geração térmica de origem fóssil e poluentes para atendimento da demanda. O fato é que, permanece sem resposta clara e definitiva a pergunta de difícil solução: o que é mais vantajoso do ponto de vista, técnico, econômico, social e ambiental, uma hidroelétrica com reservatório com capacidade de regularização ou sem poder de regularização, mas que precisa ser complementada com fonte térmica, em geral, poluente e mais cara?

    Comentei bastante sobre questões ligadas à geração de energia, entretanto, se o tema é gestão de energia, não posso deixar de mencionar, questão ainda pouco explorada, que diz respeito ao consumo eficiente da energia elétrica. A energia elétrica mais barata e de menor efeito colateral para o meio ambiente é aquela que deixamos de consumir evitando-se o desperdício ou fazendo o uso racional de energia. Isso não significa perda de conforto ou redução de produção na indústria e sim uso inteligente da energia. São práticas simples e que os avanços tecnológicos nos permitem executar, como substituir uma lâmpada incandescente de 100 watts por uma fluorescente de 25 watts. Com este simples gesto você só tem a ganhar: reduz o consumo em 3/4, reduz seus gastos com energia na mesma proporção, ganha em luminosidade (maior conforto visual) e, ainda, contribuiu com o meio ambiente evitando que novas usinas sejam construídas. Banhos mais curtos, sensores de presença que ativam uma lâmpada por tempo pré-determinado em locais de pouco acesso ou mesmo programar a lava louça para trabalhar na madrugada são outras atitudes inteligentes que podemos ter para usar de forma inteligente nossos recursos naturais. Nas indústrias, não raro pode-se obter economias da ordem de 20% com a troca de equipamentos obsoletos e melhorias nos processos de produção. Nestas questões, estamos apenas engatinhando e, no fundo, trata-se de uma grande transformação cultural que precisa, cada vez mais, ser estimulada.

    FOCO - Você viveu, talvez, os momentos mais importantes de mudança no setor elétrico do país. O que mais o desagradou e o que é positivo nesse processo?

    LMF- O que vejo de mais positivo foi à criação do mercado livre de energia e o estabelecimento da competição nas pontas de geração e consumo. Hoje, cerca de 28% do consumo de energia é livremente negociado entre os consumidores e seu fornecedores (geradores ou comercializadores) de energia. A abertura do mercado promoveu a entrada de novos agentes de geração e, hoje, temos mais 300 produtores independentes de energia e mais 1.000 consumidores livres. Infelizmente, o processo de abertura está limitado a grandes consumidores com demanda acima de 500 KW e os consumidores residenciais não podem livremente adquirir sua energia como em vários países do mundo. Outro ponto negativo é que a atuação no mercado livre é bastante complexa com centenas de regras e procedimentos. Acho que ao longo desses 10 anos de desenvolvimento do mercado de energia elétrica fomos esquecendo conceitos basilares que precisam ser resgatados: simplicidade, transparência e garantia de acessibilidade para todos.

    Luciano com seus pais José Geraldo Freire / Joselita e irmãs Adriana e Nívea.
    Luciano com sua esposa Wânia e seus dois fi lhos: Gabriel, 7 anos e Luiza, 5 anos.

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