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Nov/Dez 2019
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Homem

Dessa vez, vai!

  • Ele acordou especialmente animado no primeiro dia de 2012. Escolheu entre algumas poucas a sua melhor túnica branca e apanhou o seu inseparável cajado.

    Em frente ao espelho penteou a sua longa barba branca e apesar das marcas indeléveis que trazia na face, profundos registros do tempo e das adversidades enfrentadas ao longo da vida, seu semblante era de serenidade e confi ança. Por um breve instante fitou sua imagem e gostou do que viu. Permitiu-se até um sorriso. Tímido, mas um sorriso de orgulho contido.

    Era um profeta do apocalipse, mas tinha lá sua vaidadezinha... E finalmente chegara a era do fim dos tempos que há tanto tempo profetizava.

    Aquele sorriso que lhe escapara traduzia seu sentimento em relação a toda indiferença, descrédito e humilhação que sofrera ao longo da sua caminhada profética. Vivia sozinho, na mais absoluta miséria e era constantemente vítima do escárnio dos meninos da cidade. Quando ele levantava solenemente seu cajado e punha-se a falar das suas visões, das agruras que a humanidade enfrentaria no futuro, o povo gritava:

    – Advinha os números da mega sena, profeta!

    Outros gritavam, entre gargalhadas:

    – Que bicho vai dar hoje na corujinha?

    Brandindo o cajado ele exortava, incansavelmente, os incrédulos a seguirem-no, pois o fim dos tempos era inexorável. E estava próximo, dizia, e só os escolhidos sobreviveriam.

    Certo é que ele vaticinara o fim do mundo em várias outras ocasiões, seja na passagem do cometa Halley, um sinal inequívoco da ira dos céus; na virada do milênio, gritando pelas ruas a máxima “mil passará, dois mil não chegará”; o aquecimento global; a nova era glacial e os asteróides que cairiam sobre a terra, aniquilando a vida por aqui, foram muitos que ele anunciou.

    Os meninos abriam guarda-chuvas perto dele e gritavam, em deboche:

    – Olha o asteróide, olha o asteróide! E riam-se dele a valer.

    Ele retrucava, correndo atrás deles, enquanto imprecava às potestades celestes castigo aos seus algozes, usando termos que os meninos sequer sabiam o que signifi cavam.

    – Incréus! Ímpios! Que a terra os trague para as profundezas dos abismos infernais, apontando-lhes o cajado ameaçadoramente. Mas a terra não se abria e os garotos zombavam mais ainda dele e ele voltava para a sua reclusão, refugiando- se em sua solitária loucura apocalíptica.

    A teimosia desse mundo e da humanidade de continuar existindo não conseguia demovê-lo de sua missão profética. Quanto mais sozinho ficava, mais profundamente mergulhava em seus delírios e quando reaparecia, trazia sua convicção renovada e revigorada.

    E dessa vez, não há mais dúvida. Dessa vez tem dia, mês e ano para o fim dos tempos. – Preparai-vos, ó incréus! Céticos de todo o mundo, aceitai a verdade que vos ofereço, dizia pelas ruas o profeta, com desconcertante certeza e fé. Tamanha era sua confiança que pregava na segunda pessoa do plural. Do imperativo afirmativo, o que não é pouca coisa...

    Os moleques até passaram a respeitá-lo e deixaram- -no predizer o fim do mundo em paz.

    De cajado em riste, olhos brilhantes e gestos vibrantes ele anuncia pelas ruas o fim dos tempos para o dia 21 de Dezembro de 2012 e assevera com indisfarçada satisfação:

    – Dessa vez, vai!

     

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    Magela Oliveira - Publicitário Agência Wikimídia

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