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Nov/Dez 2019
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Homem

O bipolar, o obsessivocompulsivo e o depressivo

  • Eles chegaram juntos ao bar e sentaram-se em uma mesa de canto, depois de muita discussão com o obsessivo-compulsivo sobre a melhor localização, visão, vento nas costas, rota de fuga e distância do banheiro da mesa escolhida.

    O garçom chegou e postou-se, mal-humorado, ao lado da mesa, calado e imóvel aguardando o pedido.

    O bipolar foi primeiro a pedir, num tom que todo o bar pudesse ouvir:

    – Champagne pra todo mundo! E com um gesto largo dos braços e um sorriso nos lábios dava a entender que convidava a todos para comemorarem com ele ninguém sabia o quê.

    O obsessivo-compulsivo, olhando fi xamente para um fi o de linha que pendia de um dos botões do paletó do garçom, perguntou:

    – Tem água Perriê?

    O garçom apenas moveu os olhos para a direção onde estava o depressivo aguardando o último pedido.

    – Arsênico. Duplo, por favor.

    O garçom desapareceu atrás de uma portinhola de vai e vem e reapareceu com sua bandeja redonda, trazendo uma Brahma estupidamente gelada e três copos. Em silêncio distribuiu os copos na mesa, colocou a cerveja no centro, abriu-a e declarou:

    – Deixem de frescura.

    O bipolar, que passara da euforia inicial para a agressividade, fez menção de reagir ao desplante daquele sujeito, mas foi dissuadido pelo depressivo:

    – Não vale a pena, como de resto, nada vale a pena nessa vida... E ademais, nesse estado que você está, vai comemorar o que com Champagne?

    O bipolar, sentido uma profunda tristeza invadir-lhe o espírito, baixou os olhos e assim como o depressivo, olhando para o chão de ladrilhos hidráulicos, procurava uma passagem, um buraco qualquer onde pudessem esconder- se de si mesmo.

    E o obsessivo-compulsivo de olho no fio pendente do botão do paletó do garçom...

    Aquilo sim era uma provocação! Balançando bem ali à sua frente, um fio insolente, diferente dos demais que se mantinham recolhidos, obedientemente presos aos seus nós originais.

    .

    Como resistir a uma afronta dessas? Aquela discrepância precisava ser corrigida e ele sentia que fora enviado àquele lugar com a missão de reparar aquela aberração. Imbuído das melhores intenções estéticas, ele partiu para cima do garçom, para morder e cortar aquele fio rebelde.

    Diante da ameaça iminente e dos dentes à mostra, o garçom, acostumado a enfrentar a batalha diária, se defendia usando sua bandeja como o escudo de um legionário romano.

    A cena era dantesca. Caído no chão do bar, sob os olhares espantados dos demais e dando com a bandeja na cabeça do obsessivo-compulsivo, o garçom, que era um profundo conhecedor da alma humana, concluiu:

    Não é exagero quando dizem que estabilidade psicológica dos homens está por um fio...

     

    .

    Magela Oliveira

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