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Janeiro/Março 2020
Janeiro/Março 2020

Homem

Encontro

  • Eis que aconteceu da personagem, de súbito, materializar-se à frente do leitor.

    Sobressaltado com aquela aparição inusitada, ainda com o livro que lia aberto nas mãos, o leitor conseguiu apenas balbuciar:

    – Como você é diferente daquilo que eu imaginei!?

    A personagem, com grande naturalidade, como se o fato de um ser fi ctício sair dos livros e ganhar vida fosse algo corriqueiro, falou:

    – É claro que não sou aquilo que você idealizou, pois sou fruto da imaginação do autor, moldado segundo seu repertório e experiências pessoais.

    E como era uma personagem de outra época e usava expressões há muito abandonadas, completou: – Ora bolas!

    Disse então o leitor, já refeito do choque:

    – O autor o descreveu tão minuciosamente, com tantas particularidades físicas e psicológicas, que julguei conhecê-lo completamente.

    – Nem mesmo o autor me conhece completamente, replicou visivelmente ofendido.

    – Peralá, interveio o autor, recém- chegado àquele encontro improvável que reunia agora o leitor, o autor e sua personagem. Como não lhe conheço se fui eu quem lhe criou?

    – E a idiossincrasia? E o livre arbítrio?

    – Que Mané livre arbítrio? Você é apenas um fruto da minha imaginação, como você mesmo disse há pouco.

    – Tudo que se cria é fruto da imaginação de alguém, filosofou insolentemente a figura.

    – Você é uma personagem importante na minha trama, mas nada mais que isso, continuou o autor, já um pouco irritado. E para o seu governo, você morre no final.

    – Assim esta história perde a graça, indignou-se o leitor, com a antecipação do desfecho da trama tão bem amarrada ao longo dos capítulos do livro.

    Impassível ante a terrível revelação do seu destino, a personagem, solenemente sentenciou:

    –  Todos nós morreremos no final.

    O autor e o leitor se entreolharam, atingidos duramente por aquela verdade. A gravidade daquela afirmação emprestava profundidade à personagem e trazia à tona um tema evitado fisiologicamente pelos homens: A finitude da vida.

    – Mas a sua vida só vai durar mais algumas páginas, alfinetou o autor, tentando desesperadamente recuperar o controle da situação.

    Mantendo a serenidade, a personagem questionou:

    – E quem pode afirmar com certeza quanto tempo vai durar a vida de cada um de vocês? E dentre nós, além de mim, quem terá sua história contada em livro? E olhando desafi adoramente para ambos aguardou uma resposta.

    Como ambos permaneceram mudos, a personagem falou, primeiro para o leitor:

    – Continue a ler o seu livro. Morrer não é importante! É um fato corriqueiro e comum, a inexorável consequência da vida. Surpreendentes mesmo são a vida e suas possibilidades.

    E voltando-se para o autor, como o fantasma que vem perseguir os seus algozes, disse:

    – Você me matou, mas eu pareço morto para você? Quando me assassinou friamente, esqueceu-se que eu reviveria sempre que alguém lesse seu livro e assim poderia lhe assombrar eternamente?

    Não. Ele nunca havia pensado nisso e com resignado alívio, o autor agradeceu por estes encontros serem tão raros...

     

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    Magela Oliveira
    Publicitário Agência Wikimídia

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