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Nov/Dez 2019
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Mulher

Lembrar (só) o que é essencial

  • Devo confessar que sou uma pessoa demodê (ainda usam esta palavra?) que preza valores e princípios que hoje, para alguns, são considerados antiquados. Me questiono sempre, como que o bom, genuíno, justo e verdadeiro pode ser esquecido? O que há melhor do que isso? E continuo dando valor ao que (a meu ver) realmente importa: à espiritualidade, ao relacionamento familiar, a amigos verdadeiros, a um bom espetáculo (das artes ou da natureza), a uma boa mesa, a bons livros, discos e filmes.

    Fico perplexa com os valores atuais, vivemos um capítulo da história humana em que o excesso de informações e o consumismo fizeram com que as pessoas se esquecessem do que é essencial. Na correria do dia-a-dia em que notícias e objetos são descartáveis já não se privilegia mais a memória histórica. Descarta-se tudo: de objetos domésticos a amigos, de roupas a amores. Vale a regra de que tudo passa e só o novo (de preferência o último lançamento) tem valor, o resto... vai para o lixo. Percebemos que os políticos se beneficiam dessa situação, um escândalo é substituído por outro e eles contam com o esquecimento, do distinto público, para se reelegerem.

    Mesmo numa cultura em que esquecer é a lei, ressentir é inevitável. O ressentimento é a incapacidade de esquecer, de deixar de lado, ou seja, é a impossibilidade de jogar fora o verdadeiro lixo e seguir em frente sem entulhar a alma de mágoas. O ressentimento é fruto da expectativa frustrada e principalmente da culpa. Aliás, a culpa é um legado histórico que a humanidade vai ter que carregar até aprender a aceitar suas escolhas e as responsabilidades advindas das mesmas.

    Para os antigos gregos, Mnemósyne, a deusa da memória, era a mãe das nove musas que inspiravam os artistas. Numa civilização oral nada mais compreensível que a divinização da memória, pois ela é a mãe das artes e é por meio dela que se mantém a sua tradição e existência. Na filosofia distingue-se dois modos rememoração. Mneme: arquivo disponível (registro consciente) que pode ser acessado a qualquer hora dependendo da nossa vontade e Anamnese: memória que apesar de estar guardada em cada um (inconsciente), só pode ser acessada mediante um certo esforço. Mnemósyne era a deusa que permitia a conexão com os mortos, com o que já foi (o passado) e inclusive com o que poderia ter sido (e não foi), com o que, para sempre, não mais nos pertence.

    Para Nietzsche quem quiser viver bem, quem almeja, de fato, ter uma vida boa, deverá provar o equilíbrio entre lembrar e esquecer. Porém numa era de excesso de informações: O que lembrar? O que esquecer? Como conseguir este equilíbrio? Na busca do meio termo temos que ser sensatos e guardar o que nos traz bons sentimentos e descartar o que nos faz mal (o lixo do ressentimento). Porém quando acessamos nossa história e analisamos nossa vida percebemos que: a somatória das lembranças nos faz bem, pois nos mostra o que se passou para chegarmos onde estamos.

    E a rememoração do que verdadeiramente importa é sempre positiva, pois não podemos esquecer as nossas tradições, valores e princípios, por mais antiquados que pareçam, não podemos esquecer jamais quem somos, de onde viemos e para onde, conscientemente, queremos ir.

    Para buscar a alegria de viver e ter uma vida equilibrada, tranquila e harmoniosa é preciso ter consciência da nossa essência, olhar para frente e extrair do momento tudo que ele pode nos oferecer e se reinventar a cada dia. É justamente essa invenção do presente que nos dará, no futuro, um passado do qual tenhamos prazer de lembrar.

     

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    Gizele Rabelo
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