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Nov/Dez 2019
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Comunidade

DEFICIENTES VISUAIS - Associação funciona com dificuldades

  • A Rev-Ver, entidade que reúne pessoas com defi ciência visual em Passos, vem promovendo assistência e orientação aos associados, mas está necessitando da colaboração da sociedade; voluntários e transporte são as principais carências.

    Grupo de defi cientes visuais e voluntários reunidos na Rev-Ver.
    Grupo de defi cientes visuais e voluntários reunidos na Rev-Ver.

    Fundada oficialmente há pouco mais de três anos, a Rev-Ver, nome fantasia da Associação dos Deficientes Visuais de Passos, vem funcionando em meio a difi culdades. Local para fazer suas reuniões semanais com os associados, a entidade tem disponível – o Lions Clube, que cedeu o espaço por tempo indeterminado. Mas o transporte limitado e o número insufi ciente de voluntários para ajudar nas diversas atividades desenvolvidas são alguns problemas que a Rev-Ver vem sofrendo.

    O presidente da entidade, Alaor Carlos de Oliveira Rodarte, explica que a associação não tem fonte de renda própria, a não ser o pouco dinheiro arrecadado com a venda das peças artesanais criadas pelos defi cientes e algumas verbas recebidas eventualmente, que são empregadas em infraestrutura. “Nós fazemos as reuniões somente às sextas- feiras, porque é o único dia em que o transporte nos foi dado, mas é um dia em que muitos voluntários não podem vir”, disse, explicando que está trabalhando para conseguir transporte diário para os associados participarem de todas as atividades.

    Defi ciente visual cuida da casa e da mãe de 92 anos A dona de casa Maria Dilza Teixeira, de 71 anos, é cega há aproximadamente 40 anos. Aos 22 anos ela perdeu a visão do olho direito. Na casa dos 30, ela já não enxergava também com o outro olho. Mas ela convive bem com essa defi ciência, porque, segundo diz, suas vistas não eram boas desde criança. “Com sete anos de idade eu pus óculos de 22 graus”, recorda, contando que a cegueira mesmo começou com o descolamento da retina, quando ela estava grávida do segundo fi lho. “Tentei operar, mas desisti por orientação das irmãs de caridade do hospital (em Belo Horizonte)”, disse. Sem enxergar nada, Dilza dá conta da casa: arruma, lava, passa, cozinha, faz crochê e ainda cuida da mãe, a cabeleireira aposentada Nely Duarte Teixeira, de 92 anos. “Nunca fi z promessa para Santa Luzia (a padroeira dos cegos). Aceitei a perda da visão e desde o primeiro momento comecei a treinar, escolhendo feijão”, relembra uma atitude sua para se manter ativa, o que ocorre até hoje. Dilza é membro da Rev-Ver e também considera importante a união dos defi cientes pelo bem de todos. “Lá é só alegria! Todo mundo conversa, todo mundo dá risada”, disse, completando que a cegueira não é de todo ruim: “Eu sou feliz em ser cega, porque sou muito paparicada. Se eu voltar a enxergar, ninguém vai ligar mais para mim (brinca)”.
    Deficiente visual cuida da casa e da mãe de 92 anos
    A dona de casa Maria Dilza Teixeira, de 71 anos, é cega há aproximadamente 40 anos. Aos 22 anos ela perdeu a visão do olho direito. Na casa dos 30, ela já não enxergava também com o outro olho. Mas ela convive bem com essa defi ciência, porque, segundo diz, suas vistas não eram boas desde criança. “Com sete anos de idade eu pus óculos de 22 graus”, recorda, contando que a cegueira mesmo começou com o descolamento da retina, quando ela estava grávida do segundo fi lho. “Tentei operar, mas desisti por orientação das irmãs de caridade do hospital (em Belo Horizonte)”, disse. Sem enxergar nada, Dilza dá conta da casa: arruma, lava, passa, cozinha, faz crochê e ainda cuida da mãe, a cabeleireira aposentada Nely Duarte Teixeira, de 92 anos. “Nunca fi z promessa para Santa Luzia (a padroeira dos cegos). Aceitei a perda da visão e desde o primeiro momento comecei a treinar, escolhendo feijão”, relembra uma atitude sua para se manter ativa, o que ocorre até hoje. Dilza é membro da Rev-Ver e também considera importante a união dos defi cientes pelo bem de todos. “Lá é só alegria! Todo mundo conversa, todo mundo dá risada”, disse, completando que a cegueira não é de todo ruim: “Eu sou feliz em ser cega, porque sou muito paparicada. Se eu voltar a enxergar, ninguém vai ligar mais para mim (brinca)”.

    A Rev-Ver tem 16 membros e tem espaço para muito mais gente, segundo o presidente, porque Passos possui mais de 200 defi cientes visuais, segundo levantamentos do Programa de Saúde da Família. “Pelo fato da associação ser nova, esse número ainda é pequeno, mas a tendência é de crescer”, disse, informando que a entidade está aberta a quem quiser se associar. 

    A professora e escritora Hilda Mendonça, voluntária da Rev-Ver, conta que há bastante trabalho a ser feito e que os colaboradores podem ajudar de diversas formas. Hilda, por exemplo, lê textos, promove diversão, serve lanche, entre outras. “Aqui a gente canta, declama poesia, eu faço leitura de textos porque alguns não lêem o braile. Um voluntário ajuda em tudo”, disse.

    Já os recursos que a entidade tem disponível são o empréstimo do Lions para as reuniões e, eventualmente, dinheiro de doações. Um desses recursos, repassados recentemente, são R$ 10 mil da Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de Minas Gerais, que será empregado na compra de máquinas de escrever em braile, de regletes – espécie de tábuas para escrita manual em braile e que o associado poderá levar para casa –, 30 bengalas, armários para guardar material, bebedouro e um aparelho de som para os associados ouvirem leitura de livros.

    Também, há pouco tempo, a Rev-Ver recebeu o valor arrecadado na portaria de um leilão de gado na Expass (exposição agropecuária do Sindicato dos Produtores Rurais), realizado em 1º de abril, além de outras doações em dinheiro, como as de um bingo em prol da entidade promovido pelo Lions e do arremate de um carneiro ofertado por um produtor rural.

    Além das máquinas de escrever em braile, a entidade está preparando a instalação de uma sala de informática, que terá dez computadores enviados pelo Ministério da Educação, através do programa Telecentro. Com esse equipamento, a entidade irá oferecer cursos para os associados, disponibilizando mais uma atividade para a inclusão social deles.

    A pedagoga Aleides Aparecida de Oliveira Acorinte - professora de braile voluntária na Rev-Ver.
    A pedagoga Aleides Aparecida de Oliveira Acorinte - professora de braile voluntária na Rev-Ver.

    Professora de braile é voluntária na Rev-Ver 

    Em fevereiro do ano passado, dois membros da Rev-Ver (Associação dos Defi cientes Visuais de Passos) começaram a aprender o sistema de alfabetização em braile, que consiste no aproveitamento da sensibilidade tátil do defi ciente. A pedagoga especializada em defi cientes mentais, com experiência de 15 anos na Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), 14 deles com o braile, Aleides Aparecida de Oliveira Acorinte, é a voluntária encarregada desse tipo de ensino na associação. Ela conta que começou 2011 com dois alunos e chegou ao fi m do ano com 16.

    No entanto, as aulas em 2012 estão suspensas porque a Rev-Ver está reformulando o espaço em que realiza as atividades com associados e voluntários, mas devem ser retomadas em breve, segundo a professora, porque a alfabetização do cego com o braile é um dos meios para incluí-lo na sociedade. “O nosso objetivo na associação é tirar o defi ciente visual da ociosidade, melhorar a qualidade de vida dele e fazer sua inclusão social”, justifi ca, citando também outras atividades pedagógicas e laborais, como a tapeçaria artesanal.

    Máquina Braile.
    Máquina Braile.

    Segundo Aleides Acorinte, a alfabetização em braile requer um período de preparação do aluno, para que ele fique com o tato bem aguçado. Esse tempo preparatório, porém, depende de pessoa para pessoa, de sua educação e do fator emocional. “Têm alunos que entram com dedicação e aprendem rápido”, disse. 

    O braile é ensinado para toda pessoa com defi ciência visual, mesmo aquela que pode se locomover e fazer diversas atividades, independentemente da ajuda de terceiros, segundo a professora. “Às vezes, o defi ciente tem acuidade visual, mas para a leitura é preciso do braile”, observa.

    Enio Modesto

    O presidente: Alaor Carlos de Oliveira Rodarte: ?Ns fazemos as reunies somente s sextas-feiras, porque o nico dia em que o transporte nos foi dado, mas um dia em que muitos voluntrios no podem vir.?

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