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Nov/Dez 2019
 Nov/Dez 2019

Homem

Orgasmo

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    –Não, disse a mãe, escandalizada.
    – Definitivamente não, disse o pai, autoritário.
    – Mas eu gostei tanto, choramingou a filha, adolescente.
    Ela tinha dezesseis anos, um piercing no umbigo, longas unhas pintadas de verde, um namoradinho esquisito que o pai detestava, um Iphone 4s que parecia ser mais importante para ela que a própria família e um gato siamês. Não fosse pelo gato seria uma menina normal.
    – Dentro da minha casa eu não admito, asseverou o pai num tom um pouco mais alto que o de costume, na tentativa de se impor.
     
    – Minha filha, o que os vizinhos vão pensar? Disse a mãe desesperada.
    – Eu não tô nem aí para o que os outros pensam, disse a filha, inconsequente.
    O pai sentiu ondas de calor percorrer-lhe o corpo, a visão turvar-se e o coração bater num ritmo desconhecido dentro do seu peito. A mãe, percebendo estas reações pelo olhar faiscante do pai, que agora tinha os olhos vidrados, a boca crispada e a respiração ofegante, temendo pelo pior, tentou contemporizar:
    – Triz – era assim que gostava de ser chamada a Ana Beatriz, um nome com um significado tão bonito, reduzido a Triz, pensava a mãe... ainda se fosse Bia como seria normal, mas não, com ela tinha que ser tudo diferente – pense melhor, querida, reconsidere.
    – Já está decidido, eu quero orgasmo e pronto. E pôs os fones de ouvido indicando irrefutavelmente que havia encerrado a discussão.
    O pai, vermelho e trêmulo de raiva, solenemente ignorado pela filha, voltou-se contra a mãe:
    – É tudo culpa sua, acusou. Você sempre deixou essa menina fazer tudo que queria e o resultado é esse. Ela não tem limites, não respeita mais ninguém.
    Ao invés de discutir, sabiamente a mãe comunicou com voz decidida, encarando o marido:
    – Este é um caso para a tia Gabi.
     
    O silêncio dominou a sala. Ninguém mais disse uma  palavra. O pai calou-se, pois seu repertório de argumentos pacíficos já se esgotara, a mãe porque já ligava para o celular da Gabi e a Triz, ouvindo o pancadão, isolara-se de tudo.
    A Gabriela era a irmã caçula da mãe da Triz, fazia psicologia, era solteira e ainda frequentava a balada e por ser mais jovem e conhecer o mundo dos adolescentes era sempre convocada pela família para intermediar conflitos como aquele que se instalara no lar da sobrinha.
    A mãe, zelosa, narrou detalhadamente todo o caso, reforçou o constrangimento a que seriam expostos caso a Triz não fosse dissuadida imediatamente de sua decisão.
    E a Tia Gabi, como sempre, cheia de segurança:
    – Deixa comigo! E completou: Vou precisar de duzentos reais.
    A mãe nem discutiu, afinal era a reputação da família que estava em jogo.
    – OK!
     
    No final da tarde, a Tia Gabi chega à casa de Triz, sorridente, linda e sensual como sempre, cumprimenta vagamente a todos e diz, olhando para a Triz:
    – Olha o que eu trouxe pra você... E de uma caixa cheia de furinhos salta um irresistível filhote de yorkshire, tão pequenino, tão desprotegido, tão frágil que é acolhido carinhosamente pela Triz, que imediatamente se esqueceu do gato ao qual pretendia chamar de orgasmo.
    – Ele é lindo, tia.
    – E já tem até nome. É Justin!
    – Que legal, curti...
     
    Todos respiraram aliviados e quando a Gabi já se despedia para sair, a Triz, com uma ponta de remorso a ferir sua jovem consciência, questionou:
    – Tia, e o gato?
    E a tia Gabi, ciente que aquele gato seria sumariamente defenestrado disse, com uma naturalidade desconcertante, mas muito peculiar:
    – Querida, você vai ter muito tempo para se preocupar com gatos e orgasmos... 
     

    por Magela de Oliveira

     

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