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Nov/Dez 2019
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Mulher

Nunca é tarde para começar

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    Quando adolescente passava as férias na casa de um tio muito querido em Goiás Velho e como adorava ler passava as tardes na biblioteca de lá. Através da bibliotecária tomei conhecimento (em 1977) de uma moradora da cidade que havia escrito um livro. Li os poemas da senhora em uma noite e na manhã seguinte, munida da espontaneidade e coragem dos meus 13 anos, fui visitá-la. Ela levou meus elogios e comentários a sério e ficou muito contente com a visita e me contou que, apesar de ter frequentado por apenas dois anos a escola, tinha tomado gosto pela leitura e pela escrita e que durante toda a sua vida nunca parou de ler e escrever, mas que infelizmente, a vida tinha sido muito dura e que só em 1965, aos 76 anos, ela tinha “perdido o medo” e lançado seu primeiro livro, financiado por ela mesma com suas economias de doceira. Porém, ela lamentou que seu trabalho era pouco conhecido, inclusive na própria cidade e que muitos a viam apenas como uma senhora excêntrica que “insistia” em escrever, mas afirmou que ela não desistia e que continuava escrevendo. Felizmente no ano seguinte a UFG, para inaugurar a gráfica do Campus, patrocinou alguns escritores goianos e o livro dela foi um dos selecionados. Por obra do destino esse livro cai nas mãos de Drummond, que se encanta com os poemas e escreve artigos entusiasmados elogiando a escritora. A partir daí vários escritores e intelectuais tomam conhecimento do trabalho de Aninha e aos 92 anos, finalmente, ela passa a ser conhecida e valorizada.

    A última vez que a vi foi em 1983 e ela ainda continuava fazendo doces e escrevendo. Estava lúcida, contente e otimista, me contou que havia recebido a visita de vários escritores e jornalistas e que havia recebido o título de Doutora Honoris causa da UFG. Passei uma tarde agradável com ela e ela me confidenciou que estava escrevendo “sem parar” e estava terminando um livro. Três meses depois “Vintém de Cobre” foi lançado pela Editora Globo, quatro meses depois Aninha ganha o prêmio Juca Pato e é eleita a intelectual do ano. Dois anos depois ela morre aos 96 anos de idade e em 1999 foi aclamada como uma das maiores escritoras do século XX.

    E assim termina (ou começa?) a história de Aninha, menina pobre que nasceu em 1889, apaixonou-se pela escrita e apesar de tudo e de todos “insistiu” em escrever e acreditar em seu trabalho. Ela me contou, inclusive, que quando foi dar a sua primeira entrevista insistiu para que o jornalista lesse seu livro antes, pois não queria a complacência de alguém que iria apenas ver nela “uma velhinha excêntrica que escrevia sem dar o devido valor à sua obra.”

    E foi com esta força, perseverança e determinação que a aparente frágil Aninha, mais conhecida como Cora Coralina, construiu a sua vida e obra e nos deixou não só o legado, inestimável, de seus livros, mas também do seu exemplo e mostrou para todos que nunca é tarde para começar (ou recomeçar) e lutar pelos seus sonhos.

    Deixo para vocês um poema dela de aperitivo para despertar a “fome” pela obra dessa grande escritora. “Não te deixes destruir juntando novas pedras e construindo novos poemas. Recria tua vida sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. Faz de tua vida mesquinha um poema. E viverás no coração dos jovens e na memória das gerações que hão de vir. Toma a tua parte. Vem a estas páginas e não entraves seu uso ao que têm sede.“ Lindo, não? Espero que tenham ficado com muita “sede” e que busquem o “pote” para saciá-la.

    por Gizele Rabelo

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