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Nov/Dez 2019
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Homem

O aprendiz de relojoeiro

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    Eram tantas engrenagens, de todos os tipos e tamanhos. Algumas muito grandes, saídas da torre da igreja, outras tão pequenas que cabiam muitas dentro de um relógio de pulso. Mas todas elas cheias de dentes com os quais mordiam e mastigavam o tempo, girando solidariamente no eterno tic-tac dos relógios.

    – Tic-tic, corrigia o experiente relojoeiro, por detrás de sua mesa repleta de minúsculas ferramentas e com seu inseparável monóculo preso à orbita. Tic-tac é ruído de relógio desregulado, relógio bom faz tic-tic... e solicitava ao aprendiz que pegasse um balanço, uma roda de escape e uma âncora em uma das inúmeras gavetas fininhas de um móvel de madeira escura, cheias de pequeninas caixas codificas. Dentro dessas caixinhas, milhões de pequenas peças aguardavam que mãos hábeis lhes dessem vida, apoiando seus eixos nos batentes de rubi, permitindo que seguissem seu destino de girar marcando o tempo, este, como os relógios, uma invenção do homem! 

    E o homem tem a obsessão de dividir o tempo em frações cada vez menores. Em outros tempos, o tempo era dividido entre o dia e a noite, depois pelas fases da lua. Os primeiros relógios marcavam as horas, outros acrescentaram os minutos, outros mais modernos, os segundos, depois os décimos, os milésimos, milionésimos, até os bilionésimos dos relógios atômicos apenas para constatar que, quanto mais precisa é a contagem do correr inexorável do tempo, mais inexorável ele se parece e mais rápido parece passar.

    Na relojoaria artesanal onde o velho relojoeiro se debruçava sobre aqueles relógios movidos à corda, o tempo passava num ritmo mais lento, talvez o próprio tempo, confuso com tantos relógios parados, atrasados ou adiantados que enchiam as paredes, as gavetas e as mesas, indo e voltando para seguir a cadência desordenada daqueles ponteiros, ficava dando voltas, tonto, dentro da oficina. Então, ali, os cucos cantavam quando queriam, os carrilhões martelavam seus bordões descompromissadamente, os despertadores acordavam no meio da tarde e o grande relógio de coluna, como um velho e esclerosado marechal em traje de gala, comunicava gravemente que eram seis horas às duas e quarenta.

    O relojoeiro olha para ele com respeito e meneia a cabeça. – Esse não tem jeito, murmura. Não existem mais peças de reposição para uma máquina tão antiga e ele terá que fazer com as próprias mãos outra para substituir a engrenagem banguela do velho relógio. 

    É um trabalho, minucioso, de precisão milimétrica. Pode demorar muito...

    Mas ele não se importa, afinal ele é o senhor do tempo, e assoviando uma música que o aprendiz nunca aprendeu, assim como nunca aprendeu a dominar o tempo, o relojoeiro aperta um último parafuso, gira algumas vezes a coroa e o relógio, ainda com as vísceras expostas, faz tic-tic...

    Mais um!

     

     

    por  Magela Oliveira

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