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Nov/Dez 2019
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Mulher

Eu nasci assim...

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    uvindo a música Gabriela, comecei a refletir sobre o quanto é difícil mudar e o porquê de algumas pessoas optarem, voluntariamente, por serem “sempre iguais”. O refrão da música é: “Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim”. É justamente este tipo de pensamento que faz com que a pessoa passe pela vida sem permitir que a vida (e tudo de transformação e crescimento que ela implica) passe por ela. Resistir ao novo, às mutações, à impermanência pode parecer muito mais fácil para alguns que arriscar-se e viver intensamente.

    Mudar é extremamente complexo, pois o medo do desconhecido nos paralisa, e por outro lado, o que nos é familiar nos dá uma ilusão de segurança. Daí nos consolamos com a ideia de que por pior que esteja a situação atual, ela é conhecida. Sabemos, teoricamente, em que terreno pisamos, como as coisas se comportam e esse “saber” nos alivia e acalma. Mesmo que nos aniquile aos poucos. É como a estória do sapo. Se você colocá-lo em uma água quente ele pula fora imediatamente, porém se você colocá-lo em uma panela com água fria e for aquecendo aos poucos, ele vai se acostumando e acaba por morrer cozido.

    Sei que esta metáfora é um pouco forte, porém mostra que tendemos à repetição e acomodação até mesmo quando a situação nos é desagradável. Para alguns, somente quando eles chegam ao fim do poço é que eles têm força para emergir e buscar mudanças e arriscam a sair do comodismo, do tédio e vivenciar novas possibilidades de ser, de agir e interagir com o mundo.

    Nossos hábitos são padrões de comportamento que o nosso cérebro associa. Uma vez associados e compreendidos, alterá-los demanda um grande esforço. E em anos de evolução nossa mente foi treinada para evitar qualquer esforço que pareça desnecessário, pois o cérebro tende a empreender esse esforço apenas para aprender coisas novas e não vê “sentido” em mudar o que já é conhecido.

    E com o passar do tempo, passamos a acreditar “que eu sou ‘sempre’ assim” e nem refletimos mais sobre as nossas ações, apenas ligamos o piloto automático. Se quisermos viver de fato, temos que, urgentemente, desativar esta função e assumir a direção da nossa jornada, esta mudança de atitude depende só de nós. Fácil assim? Não. Exigirá muito esforço, muita determinação, concentração, disciplina. Muitos reclamam que querem mudar; que gostariam de ser diferente, mas no fundo não se convencem que desejam de fato isto. As mudanças operam de dentro para fora e nunca ao contrário. Temos que assumir internamente, conscientemente o controle e mudar as situações e as nossas características que nos incomodam, impor metas claras, precisas e factíveis e jamais desanimar.

    Segundo M.J Ryan: “Muito dos maus hábitos que cultivamos se tornam prisões de sofrimento: hábitos de pensamentos negativos, de comportamentos destrutivos, de padrões de inércia difíceis de superar.” A questão é que não conseguimos ou não queremos ponderar os males futuros que eles representam, bem como os benefícios que hoje podem causar. E nossa mente consegue só ver os  ganhos a curto prazo, do que as perdas a “perder de vista.”

    Daí que incorporamos os maus hábitos e passamos a acreditar que eles fazem parte da nossa personalidade, que eles definem quem somos. A sábia Clarice Linspector faz alusão a isto: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro.”

    E para concluir reflitam sobre as frases do filósofo Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso, carece de arriscar, um dia, algum, estala, aprende e esperta...” 

    ...“Mire e veja, o mais bonito é que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam.”

     

    por Gizele Rabelo

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