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Nov/Dez 2019
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Homem

As telas de nossa vida

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    Triiiiiiiiimmm...

    Ele foi arrancado da barriga da noite como em um parto forçado. Mas não viu a luz, ainda estava escuro quando se pôs, a contragosto, de pé. Todo o seu corpo pedia que voltasse ao aconchego das cobertas e do colchão macio, mas seu senso de responsabilidade, somado à necessidade de manter o emprego o empurrou para o lado oposto da sua vontade. Estremunhado, caminhou em direção ao banheiro. A água fria sempre completava o trabalho iniciado pelo despertador, aquele maldito.

    Dormitando seguiu para o trabalho, enfrentando o trânsito que o diabo amassou para ganhar o pão de cada dia, o olho fixo no relógio numa corrida pessoal contra o tempo.

    Sua vida é uma sucessão de urgências. Está sempre atrasado para o próximo compromisso e para os prazos que deve cumprir.

    Na empresa, seu cubículo, ele se senta frente à tela de 17 polegadas do seu computador e se isola do mundo. Está ocupado demais para interagir com outras pessoas. O tempo corre célere no canto direito da tela, aumentando sua ansiedade e pressão arterial. Mas ele também não tem tempo de pensar em si mesmo. 

    Tempo é dinheiro! Duas coisas que ele não tem...

    Quando não está focado na tela de 17 polegadas do seu micro está às voltas com a tela de 7 do seu smartphone, de onde recolhe mensagens sucessivas, quase sempre ordens de um patrão invisível exigindo que ele produza cada vez mais em menos tempo.

    O instinto, o seu eu mais primitivo vibra dentro dele exigindo que quebre aquilo tudo, desde o despertador até o celular, estas máquinas diabólicas, doutrinadoras, que existem com o único propósito de oprimir as pessoas. Mas cada um de nós somos muitos, e logo suas outras instâncias psíquicas acorrem e se unem para sufocar a rebeldia do instinto, aquele selvagem, que nunca superou a transição entre a caverna e a cobertura com suíte master e espaço gourmet.

    No intervalo para o almoço, finalmente ele tem um pouco de tempo livre para se deliciar com a tela de 10 polegadas touchscreen resistiva do seu Ipad. 

    Nenhum ser humano é livre enquanto depender dessas bugigangas. Tornamo-nos todos eletrônico-dependentes, internautas anônimos, viciados em tecnologia sem tempo para nada mais além de satisfazer a fissura por cada vez mais tecnologia.

    Mas ele nem percebe sua dependência e acha que pode parar quando quiser, coitado...

    Depois de mais um dia exaustivo, ele enfrenta os mesmos adversários na volta para casa, numa justa contemporânea, onde os cavalos foram substituídos pelos carros e as lanças pelas buzinas. E quantas são as buzinas, de carros, de motos, muitas motos. A tela de 4 polegadas do seu GPS indica-lhe um caminho alternativo para fugir do congestionamento e cair em outro um pouco pior. Preso no trânsito tudo que ele tem a fazer é se distrair com um clipe na tela de 7 polegadas do seu DVD integrado ao painel do seu carro.

    Quando chega a sua casa, extenuado, tudo que ele quer é se deixar cair pesadamente no sofá da sala e permitir-se um instante de relaxamente frente à premência desse mundo, desligando-se da realidade.

    Até finalmente adormecer, desta vez diante de uma tela de 42 polegadas.

    Led, HD.

     

    por  Magela Oliveira

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