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Janeiro/Março 2020
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Comunidade

Um despertar para a música

  • Um coral formado por 56 mulheres da chamada terceira idade contribui para a autoestima e promove a socialização de seus membros através do canto.

     

    As amigas Idair Marques, costureira aposentada e cantora  amadora desde criança e Cida Castro, dona de casa, sempre cantou por hobby.
    As amigas Idair Marques, costureira aposentada e cantora amadora desde criança e Cida Castro, dona de casa, sempre cantou por hobby.

     

    Cada vez mais quem chega à chamada terceira idade não vê motivos para lamentar o passar dos anos. Os idosos estão cada vez mais ativos: praticam atividades físicas, esporte, lazer, muitos voltam para o banco da escola e outros se descobrem artistas. Em Passos, uma comprovação de que os mais velhos ainda estão cheios de energia é a Unabem (Universidade Aberta para a Maturidade), da Fesp (Fundação de Ensino Superior de Passos), que tem quase 200 alunos matriculados. O projeto foi criado há cinco anos como um espaço de convívio e aprendizado, mas superou todas as expectativas e outras atividades pós-curso tiveram que ser instituídas, entre elas a de música, através do coral. E o interesse dos alunos pelo coral foi tão grande que a coordenação da Unabem e a regente tiveram que reajustar o número de vagas.  “A ideia original era de 35 membros no coral, mas abrimos mais vagas para os novatos”, disse a professora e regente, Talita Abreu Rodrigues.

    A regente, que é musicoterapeuta, explica que hoje o coral da Unabem tem 56 cantoras – no início, havia dois homens, mas um saiu para praticar outra atividade da universidade e o outro, para não ser o único no meio das mulheres, preferiu se retirar também.  “O objetivo principal do coral deixa bem claro: não é cantar melhor e nem saber, mas é para a autoestima, trabalhar a convivência delas. Então, é um trabalho de socialização, mesmo”, observa Talita.

    Segundo uma das coordenadoras da Unabem, professora Leila Maria Oliveira Pádua Andrade, o curso dura um ano e quem atinge pelo menos 70% de aproveitamento recebe o diploma e é convidado a permanecer na universidade praticando outras atividades. Seja pintura em tela, informática básica, turismo, cidadania, leitura de texto ou ser membro do coral. Para Leila Andrade, a música despertou tanto interesse por causa de sua própria característica mesmo. “Porque é uma atividade gostosa e alegre. E também porque o pessoal tem muita carência, gosta de ser aplaudido, o que levanta a autoestima”, disse Leila.

    Com um CD gravado em 2007, trazendo suas versões para canções de Djavan, Ivete Sangalo, John Lennon e Beatles, dentre outros, a dona de casa Penha Aparecida de Castro, mais conhecida por Cida Castro, já cantava por hobby. Ela também já se apresentou em saraus e até em barzinho. Isto aconteceu em Anápolis (Goiás), onde mora seu filho Carlos Pedro, que é baterista e levou a mãe para cantar MPB (música popular brasileira) consigo.

    Cida Castro também costuma cantar em casa com a família, sempre acompanhada de pelo menos um dos três netos que tocam violão (eles também são alunos de Talita num curso de violão). O coral, no entanto, chegou para ajudar nessa vocação da dona de casa para a música. “É tudo na minha vida. Tudo que eu mais gosto é de cantar”, disse, orgulhosa de ter feito até uma surpresa para o marido, Júpiter de Castro, cantando “Se todos fossem iguais a você (Tom Jobim e Vinícius de Moraes)”, quando ele fez 70 anos de idade.

    Amiga de Cida Castro e cantora amadora desde criança (sempre em casa), a costureira aposentada Idair Marques Arantes se surpreendeu quando preenchia a ficha de inscrição para ingressar no grupo, no início do projeto em 2011, e viu o nome da colega. Ela também havia sido convidada para participar de uma das atividades extras. “Nem pensei duas vezes. Agora, quando nos chamam para apresentarmos com o coral nós vamos todas, todas exibidas (risos)”, disse, explicando que ao contrário da amiga é a única cantora da família, mas que também é prestigiada em casa. “Eu canto também para minha família. À tardinha, sempre, estamos cantando”, disse.

    De acordo com a regente Talita Rodrigues, as cantoras do coral são todas afinadas e esforçadas em aprender as melodias e letras das canções – algumas cantam também em corais de igreja. Elas cantam em uníssono – numa só voz – e se dedicam aos ensaios para fazer, sempre, boas apresentações públicas. Para isso, algumas regras têm que ser cumpridas: não pode ter mais do que cinco faltas sem motivo justificável, tem que chegar até meia hora antes de cada apresentação, ter participado da última aula e nunca esquecer a pasta com as músicas.

    “Elas terminam de cantar e já batem palmas para elas mesmas”, disse a regente, observando que a motivação é tanta que muitas levam parentes para assisti-las. No repertório, músicas da geração delas e também coisas mais atuais. São canções conhecidas nas vozes de Roberto Carlos, Sérgio Reis, Luiz Gonzaga e até dos Titãs (Epitáfio). “Quando coloco alguma música nova, como a dos Titãs, eu explico o motivo, conto a história da letra e aí elas aceitam”, explica Talita Rodrigues.

    O coral já se apresentou em diversos eventos, como no Dia das Mães (no Sesi), na formatura de nova turma da Unabem, na abertura do Coral das Janelas (da Fesp), no Natal de 2011, na Semana da Terceira Idade (promovida pela Prefeitura) e já tem datas para setembro: sarau no Palácio da Cultura (26) e Semana da Assistência Social, na Praça do Rosário, no dia 29.

    Parte da turma do Coral da Unabem; sentada à esquerda a regente Talita Abreu (com seu violão).
    As amigas Idair Marques, costureira aposentada e cantora amadora desde criança e Cida Castro, dona de casa, sempre cantou por hobby.

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