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Janeiro/Março 2020
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Homem

Sinal dos tempos

  • Sinal dos tempos

    Abalada estava bombando… Uma massa compacta de jovens sacolejava ao ritmo do batidão-psi-tecnobrega que tocava a todo volume, impedindo providencialmente que os jovens conseguissem conversar.

    No auge de sua juventude ele se julgava insuperável, especialmente quando o assunto era álcool e mulher. Foi com essa segurança (ou arrogância?) que ele se aproximou da morena de cabelos muito longos e saia muito curta e sem dizer nada, arrebatou-a para si com certa agressividade, lascou-lhe um beijo cinematográfico e, assim como se aproximara, se afastou, deixando-a junto de suas amigas ainda com o gosto da vodca que ele estava tomando em sua boca.

    As amigas sorriram, ela gritou U-ruuu! e voltaram a dançar e a beber como se nada houvesse acontecido.

    Enquanto isso, quarenta e poucos anos atrás, no salão do clube social da cidade uma linda jovem sentada a mesa junto de seus pais percebe, apreensiva, que um rapaz está olhando insistentemente para ela. Ela baixa os olhos recatadamente e esconde o leve sorriso de satisfação que se desenha em seus lábios. Este é o primeiro baile que ela participa desde o seu baile de debutantes e ela mal sabe como agir.

    E se o rapaz se aproximar e convidá-la para dançar? Pensa ela. E se seu pai não permitir? E se ela não dançar bem?  A expectativa faz com que ela experimente sensações desconhecidas e em busca de algum auxílio olha para a mãe, que já percebeu tudo, e passando delicadamente a mão nos cabelos dela, diz com um sorriso:

    – Acho que você tem um pretendente.

    O rapaz toma coragem e mais um gole de Cuba-libre e dirige-se até a mesa. Respeitosamente pede ao pai que permita que ele dance com sua filha.

    O pai olha ameaçadoramente para o rapaz, depois pra sua mulher que diz baixinho que ele deve deixar, afinal estarão sempre sob seus olhares cuidadosos.

    O rapaz toma-a pela mão e a conduz delicadamente até a pista onde os casais dançam ao som de Moonlight Serenade de Glenn Miller.

    A balada é Open Bar e as pessoas se acotovelam brutalmente para conseguir bebida. Com um copo de vodca em uma mão e um energético na outra o rapaz reencontra a morena. Mas ele está muito bêbado para reconhecê-la e depois que tomou aquele comprimido só quer curtir as luzes que se transformaram em arco-íris e o som que parece sair do fundo de uma caverna. Ela está dançando Funk e seus movimentos do quadril são tão frenéticos que estimulam o rapaz, que meio trôpego, avança em sua direção gritando:

    – Vai cachorra, gostosona!!!!  Mas ele acabou se desequilibrando e levando consigo a piriguete que vai dar com o popozão violentamente no chão.

    No baile o jovem casal espera que a música não acabe nunca! Eles estão se sentindo tão próximos, tão íntimos que o rapaz, aproveitando que estão mais longe da visão dos pais, ousa encostar o seu rosto no dela. Ele sente o calor de sua pele e sua respiração acelerada. Ali, de rosto colado, como se não houvesse mais ninguém naquele baile, ele diz baixinho em seu ouvido:

    – Você é a garota mais linda desse baile!

    No outro dia o rapaz acorda tarde, para em seguida desejar não ter acordado. Seu cérebro bóia na vodca que recende pelo quarto, competindo com o cheiro de cigarro. Seu estômago luta contra os excessos da noite e seu fígado definitivamente já desistiu. Há um hiato em sua memória. Não se lembra do que fez e nem como chegou até sua cama e a jovem, por sua vez, tenta esquecer aquela noite em que tudo que conseguiu foram uma ressaca e um roxo na bunda.

    Na manhã seguinte ao baile, ela acordou radiante e sentiu-se perdidamente apaixonada pelo rapaz com quem dançara e em seus sonhos adolescentes, seriam felizes para sempre.

    Quarenta e tantos anos depois, ninguém sequer saberá o que é um Funk, mas até hoje quando ouve Glenn Miller aquela jovem de outrora se sente a garota mais linda do baile!

    Sinal dos tempos…

    Magela Oliveira

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