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Nov/Dez 2019
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Encontro de talentos

Minas é muitas

  • Texto de Ana Lis Soares Costa

    Minas é muitas, disse João Guimarães Rosa. Em suas andanças pelas Veredas, nas muitas Minas por onde passou. Minas é muitas, mas é uma só. Minas é o contraste entre unicidade e “multimineiridade” encontrada por Guimarães. Minas é muitas, é mulher de curvas infinitas, de um mistério guardado em forma de som e silêncio. E é senhora amarga, cheia de cicatrizes históricas de inconfidentes, forcas, fúria.

    Minas tem um sabor único de nostalgia e saudade para quem o deixa. Para mim, pensar em Minas Gerais é relembrar aquilo que Drummond chamou de O céu da boca: infinitos de lembranças e sabores que a alma se lembra; e são muitos. Minas, para mim, são os domingos em casa de vó materna, com macarronada, frango, costelinha de porco, salada e legume refogado. Minas, para mim, é o pão de queijo acalentador de mãe em tardes frias e chuvosas depois de uma prova difícil na escola.

    “Quem conhece a cozinha mineira não esquece e traz sempre na lembrança a saudade do sabor dos seus inesquecíveis quitutes, quitandas e doces”. (Maria Stella Libanio Christo)

    Quando morei nas terras frias da Grã-Bretanha, descobri mais da minha identidade mineira convivendo com a diversidade: com o turco Erdinç, a colombiana Carolyn, a paulistana Leila, a espanhola Laura, o baiano Enrique, o espanhol Javier, o neozelandês Jelle (e muitos outros!).  Em Londres, nos esquentávamos com conversas e café.  Quando me perguntavam “como é Minas?”, respondia, imediatamente: ah, no meu estado tem muita comida boa. Lá se faz um pão de queijo delicioso! Cheese Bread!.  Encantavam-se e, assim, me discorria minutos intermináveis nos aspectos físicos, cheirosos, saborosos, psicológicos e mágicos da primeira mordida do pão de queijo quentinho saído do forno.

    Ana Lis - Batendo doce de leite.
    Ana Lis - Batendo doce de leite.

    E era assim que voltávamos às nossas terras e viajávamos pelo mundo: pão de queijo, tachos, nachos, Simit, gozleme, café, paella, carne de porco, sopa de amendoim... Dividíamos a sensação de companheirismo ao relembrar nossos costumes e culturas.

    “ Comer junto é irmanar-se. ‘Com o pão’, deu o companheiro”. (Luís da Câmara Cascudo)

    Para o antropólogo Clifford Geertz, em seu livro A interpretação das culturas (1978), a cultura pode ser descrita de uma forma inteligível, com densidade, contextualizada como guia de comportamentos de um grupo de indivíduos. Assim, a cultura pode ser interpretada, permitindo a construção de identidade social por meio de vários significados.

    Por isso, de acordo com Gertz, recebemos uma identidade que se expressa por muitos símbolos; e um deles, muito presente na identidade mineira, é a cozinha, a mesa, a tradição alimentar. E é desta maneira que afirmo a culinária, em meu livro: como cultura local. Espelho de muitas manifestações, história e, também, geografia. Não se faz comida sem ingredientes.

    Comer é um ato orgânico que a inteligência tornou social. (Luís da Câmara Cascudo)

    O que é a comida de Minas? Existe uma comida tradicional? Como é essa relação do mineiro e a mesa? Decidi descobrir respostas a estas questões da melhor forma: ouvindo o “mineiro”. Caminhando por aí, por algumas “Veredas”. Por sete Minas.

    Nas andanças feitas pelo sudoeste mineiro em direção à capital, Belo Horizonte, encontrei pedras, pratos, pessoas no meio do caminho. Escolhi e explorei as “Faces” mineiras de Passos, São João Batista do Glória, Carmo do Rio Claro, Serra da Canastra, Córrego Fundo, Formiga e BH. Ouvi muitas pessoas nas ruas, bares, restaurantes, praças. Por telefone, e-mail, pessoalmente. Andei pelas cidades, pelas feiras. Andei de uma cidade a outra e conheci personagens singulares, porém alegóricos, representando outras vidas de dedicação semelhante.  

    Como repórter, busquei respostas em sete cidades e trouxe no livro tudo o que meus olhos, nariz e boca registraram no caminho. Em meus escritos, apresento quinze personagens reais, além de um pouco do histórico das cidades onde parei para ser vouyer dessas vidas e sabores. Em meu livro, retrato pessoas que abriram portas, panelas e vidas para mim: Maria Bonita, Raimundo, Cris, Ana Maria, Barão, Gilberto, Tereza, Welinton eNilvânia, Giovanni, Amélia, Jaime, Bárbara, Ricardo e Lucinha.

    Estudando e entrevistando estas pessoas, conheci a História da Culinária de meu estado que reúne tradições e sabores de três etnias: indígenas, negros e brancos (portugueses). Em minhas andanças e pesquisas, aprendi sobre essa herança de nossa cozinha, reunida e misturada em tachos de cobre e panelas de ferro sob o calor dos fogões a lenha. A culinária de Minas é a arte do proveito: nasceu da falta.  

    Sabores no meio do caminho: Minas em Sete Faces são observações e anotações de uma viagem gastronômica feita pela jornalista que percorreu sete cidades, conheceu Sete Faces das muitas Minas de Guimarães. Sete Faces diferentes de Minas. E descobri uma Minas em todas elas. Minas é muitas, disse o escritor. Em meu livro, Minas é Sete. (Ou uma?). Nele, Minas é um caminho percorrido, é sabores no meio do caminho. 

     *Ana Lis Soares é jornalista formada pela UNESP de Bauru e escreveu, para seu Projeto Experimental, o livro-reportagem “Sabores no meio do caminho: Minas em Sete Faces”, que obteve nota 10 pelos professores doutores: Marcelo Bulhões, Juarez Xavier e Cláudio Coração. 

    Bolo de fubá - típico mineiro - Passos
    Brôa - BH
    Comida de fazenda - Dona Lucinha - BH
    Doce de goiaba em compota - Tereza - Carmo
    Doce de mamão - Tereza - Carmo
    Doce de mamão - Tereza de Carvalho - Carmo
    Fabricação queijo da canastra
    mingau de milho - Cris - Passos
    Munho d\\\\\\\'agua - Canjica - Córrego Fundo
    Pamonha da Cris -Passos

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