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Nov/Dez 2019
 Nov/Dez 2019

Homem

Onfalos

  • Ele traçou um círculo surpreendentemente perfeito no chão. Perfeito e enorme. Ele poderia se deitar ali dentro e abrir os braços e as pernas que não extrapolaria os limites do seu traço. E foi exatamente o que ele fez, impelido por uma força desconhecida, não sem antes se despir completamente para ocupar a posição do homem Vitruviano, emulando a imagem imortalizada no célebre desenho de Leonardo Da Vinci.

    Não sabia por que fizera aquilo, mas circunscrito ali ele se sentiu confortável e simetricamente integrado a algo maior. Tão grande que nem se preocupou com a bronca que levaria da mulher por riscar a sala de casa com o giz de cera do filho caçula.

    Braços e pernas abertas, com as extremidades tocando os limites determinados pela linha que traçara, fechou os olhos e pensou, com uma convicção que nunca havia experimentado antes, que o seu umbigo era o centro do universo.

    Instantaneamente, a conjunção de fatores que regem o equilíbrio universal, desde a tênue força de atração gravitacional até a poderosa força que mantém os átomos coesos, sofreu uma sutil, porém, desastrosa interferência.

    Eis que toda a matéria, desagregando- se, fugindo do próprio núcleo, passou a ser atraída por aquele umbigo tornado o centro do universo. Lenta, mas inexoravelmente, as coisas se rompiam em moléculas e estas, quebradas em pedaços, libertavam seus átomos, que por sua vez expulsavam seus elétrons e seus núcleos explodiam em nuvens de prótons e nêutrons que se chocavam entre si produzindo partículas subatômicas ainda menores que os conhecidos muons, quarks e bósons.

    Enquanto o universo desmoronava, ele continuava deitado, com os olhos fechados, alheio a tudo, sem imaginar a transformação que sua atitude impusera à ordem natural das coisas. Bilhões de anos de relativa estabilidade, condenados ao caos primordial. Ao seu redor tudo se movia, desmanchando-se e expandindo-se e volatizando-se, enfim, transformando-se.

    Nessa desconstrução universal, os objetos mais próximos dele, assim como aqueles de galáxias longínquas, estrelas incandescentes, feixes de fótons em curvas espetaculares, convergiam desordenadamente para o centro do universo. Um novo centro.

    Seu próprio corpo, desagregando-se, fluía para dentro do buraco negro que se tornou seu umbigo, agora o sumidouro de toda a matéria, flutuando no espaço, já que consumira tudo que havia ao seu redor, realimentado pelo crescente campo gravitacional surgido no seu interior.

    Nessa nova lei imposta ao universo, uma cadeira, um planeta ou um rio, que em suma são a mesma coisa, decompostos em suas partículas mais fundamentais, formavam uma imensa espiral girando em torno daquele cone, até serem implacavelmente tragadas pela sua irresistível força de atração, desaparecendo na imensidão negra das profundezas umbilicais. E lá dentro, na mais densa escuridão, toda a matéria, de tudo que há por ai, inclusive as letras deste conto, vão sendo comprimidas por forças fabulosas, reduzindo o espaço interatômico, até formarem um único, densíssimo e minúsculo ponto.

    O ponto final.

    por Magela Oliveira

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