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Nov/Dez 2019
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Mulher

A criança que mora em mim

  • No final da década de 70 gostava muito da música do Milton Nascimento: “Bola de gude, bola de meia” (inclusive sabia a letra e adorava cantá-la), porém só ontem ao ouvi-la é que fui fulminada pelo seu significado.

    Para vocês, que ainda não tiveram o prazer de conhecer essa música, a mesma evoca as contradições entre o mundo idealizado pela criança e o mundo adulto, mas ressalta a importância vital desse “eu infantil” que todos trazemos no fundo do nosso coração. O refrão da música é lindo e fala que ... “há um menino morando no meu coração. Toda vez que o adulto balança ele vem para me dar a mão.” Ou seja, toda vez que ficamos confusos, indecisos e perdemos o nosso chão, nosso rumo, nossa tão prezada estabilidade a criança que, felizmente, ainda habita em nós vem para restaurar a nossa coerência íntima e nos reconectar com os nossos valores originais.

    Inclusive isso é ressaltado em outra parte da música que comenta: “Toda vez que a bruxa me assombra o menino me dá a mão. E me fala de coisas bonitas que eu acredito que não deixarão de existir: amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor, pois não posso, não devo, não quero viver como toda essa gente insiste em viver. Não posso aceitar sossegado qualquer sacanagem ser coisa normal.”

    Essa parte é a que mais me comove, pois acredito, sinceramente, que são os valores recebidos na infância e prezados (alicerçados) na juventude que nos “salvam” na maturidade. Não podemos perder o idealismo da criança que já fomos e que acreditava, de fato, em um mundo melhor, mais verdadeiro, fraterno, autêntico...

    Não podemos deixar a pressão social fazer com que abdiquemos dos ideais e valores que nos formaram e que estão enraizados em nós. E, principalmente, não podemos acomodar, conformar e aceitar como normal a violência, a corrupção, a pornografi a, a mentira... que estão por aí.

    E no final Milton conclui, sabiamente: “Há um passado no meu presente. Um sol quente lá no meu quintal.” E realmente é isso que ocorre, há uma simultaneidade de tempo e idades no ser humano. Em tudo que fazemos há um pouco de infância e maturidade. O problema é que a bruxa, isto é, o medo do futuro e da opinião dos outros nos paralisa e impede de perceber, integrar e dar voz à nossa criança interior e com isso acabamos por reduzir o prazer de estar vivo e inteiros e nos contentamos em viver pela metade, sem ir a fundo em nada, sem se integrar de corpo e alma aquilo que acreditamos.

    Fundir o homem que nos tornamos com a criança que já fomos não é tornar o adulto que somos menos responsável, pelo contrário é resgatar a leveza de viver, é ver a vida como uma linda aventura, é tornar-se mais humano, gentil, compassivo, tolerante e flexível, mais encantada com o mundo que o cerca e por outro lado é perder a rigidez (aquela velha opinião sobre tudo) é rever pontos de vistas, abandonar preconceitos e ser menos repetitivo e desprovido de criatividade. Ou seja, felizmente, quando tudo parece perdido, o menino teima em nos dar a mão e nos salvar de uma vida medíocre e nos conduz de volta a nós mesmos, às nossas verdadeiras prioridades.

    Resolvi compartilhar a música com vocês e espero que procurem ouvi-la, pois acredito que do mesmo modo que ela “cantou” fundo na minha alma, cantará na de vocês. E para terminar vou plagiar o Milton Nascimento em outra música que também adoro: “Certas canções que ouço, cabem tão bem dentro de mim que perguntar carece por que não fui eu que fiz?”

    por Gizele Rabelo

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