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Janeiro/Março 2020
Janeiro/Março 2020

Homem

Solitude

  • Ele se sentia terrivelmente sozinho e perdido como se vagasse pelo deserto, pisando a areia escaldante sob um sol inclemente. Não importava para que lado voltasse sua vista, tudo eram ondulação e incerteza. E não era a iminência da tragédia o que mais o martirizava, mas sim não saber como chegara até ali e quais foram os movimentos ao longo de sua vida que determinaram o rumo do seu destino.

    Mais desesperado ainda ficava quando constatava que, onde quer que estivesse, mesmo entre muitas pessoas, sentia-se abandonado, e aos poucos os rigores do clima do deserto e a desorientação das dunas o envolviam. Com a garganta seca e a cabeça girando, mais uma vez enfrentava a tempestade de areia que o cegava e o soterrava impiedosamente. E como custava a emergir!

    Perdido no deserto você enfrenta o seu destino uma só vez, mas ele tinha que confrontá-lo repetidamente e morrer muitas vezes até conseguir atravessar seu deserto particular.

    É um tuaregue psicológico, um nômade moderno tangendo a cáfila imaginária carregada de frustrações, decepções e desilusões. Nesse mundo urgente e artificial, de compromissos intermináveis, de metas inatingíveis, de prazeres fáceis e superficiais que se dissipam tão rapidamente quanto chegam e deixam em seu rastro virtual um vazio real. Um vazio de afeto, de amizade, de solidariedade e de cumplicidade.

    Os outdoors gritam e os anúncios afirmam que ele não tem o sufi ciente, que é preciso mais e mais, que seus aparelhos estão desatualizados e que ele deve trabalhar mais para comprar os equipamentos que jogará fora quando os moderninhos de hoje se tornarem obsoletos amanhã. E amanhã aqui não é força de expressão.

    Oprimido, mais uma vez ele sente o vento quente do deserto tocar-lhe a pele e vê as dunas se formando, ondulando a paisagem. O sol, terrível, surge mais intenso que nunca e o fantasma da sede vem assombrá-lo outra vez. Transpirando sob sessenta graus, sem uma sombra onde se proteger, ele segue caminhando, pois é tudo que lhe resta fazer. Seguir sempre em frente, mesmo que nesse caso signifi que andar em círculos, sem um norte para se orientar, sem saber muito bem onde está e menos ainda para onde quer ir.

    Abandonado na imensidão, tudo que ele quer é a sombra acolhedora de uma árvore e um gole de água, oferecido por um amigo verdadeiro, para beber na concha das mãos!

    por Magela Oliveira

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