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Nov/Dez 2019
 Nov/Dez 2019

Homem

Papais Noéis

  • Num recanto muito frio e remoto o velho caminha com difi - culdade. Amparado pelo seu ajudante baixinho ele reclama:

    – Este inverno foi especialmente cruel.

    O homenzinho concorda com um leve movimento de cabeça, prevendo difi culdades.

    O velho murmura:

    – Estou velho demais pra isso, acho que não aguento mais.

    – Pense nas crianças, diz o gnomo, também já bem velho, tentando animá-lo.

    Eles seguem lentamente, arrastando os pés pelo chão gelado, tiritando de frio, rumo ao chalé, ansiosos por uma boa xícara de chá bem quente.

    Corta para o hemisfério sul. Brasil. Trinta de seis graus Celsius de manhã.

    O velho acorda e se levanta da cama com difi culdade. Ele sente o peso dos anos sobre seus ombros. Cofi ando a longa barba branca, reflete se todo aquele esforço vale à pena. Ele sempre conta com alguns trocados conseguidos no fi m do ano com aquele trabalho, mas a cada Dezembro sente que precisa fazer um esforço maior. Reclama com a mulher:

    – Que calor, só de pensar em passar o dia com todas aquelas roupas...

    – Mas lá no shopping não tem ar condicionado? Interrompe ela.

    – Sim, mas as roupas com golas de pele, as botas...

    – Pense nas crianças...

    Ele pensou nos meninos e meninas pulando em cima dele, puxando a barba para conferir se era verdadeira e quase desistiu.

    A mulher, prevendo dificuldades se aquele recurso extra não entrasse, chamou o neto e ordenou que acompanhasse o avô até o ponto de ônibus.

    Ele segue lentamente, arrastando os pés pelo chão quente, sob o sol escaldante, seguido a contragosto pelo neto que carrega a mochila com sua fantasia.

    O menino não compreende bem lógica do natal. Ele vê o Papai Noel sair de casa com uma expressão de desânimo no rosto, passa o dia fora e quando chega, reclama de dores, das crianças, das mães das crianças, dos fl ashs e do pouco dinheiro que recebe. Ele se dedica durante todo o mês às crianças do shopping, e na noite de natal, nunca está em casa, ao menos nunca está como Papai Noel, apenas como um velho cansado.

    Corta para o círculo polar ártico. Os ventos uivam na imensidão gelada e alva.

    – Será que um mito também morre? Questiona-se o gnomo, preocupado com a manutenção da lenda e do seu emprego também. O mundo tem mudado muito rapidamente e tornado difícil a adaptação de certas tradições ao ritmo frenético dos dias atuais. Nem as crianças são as mesmas, elas não têm mais a inocência daquelas de outros tempos. Amadurecem mais cedo, pobrezinhas.

    O velho olha mais uma vez a lista de presentes que tem que entregar e deixa-se cair pesadamente na poltrona do escritório. Suspira. Pensa numa praia do litoral brasileiro, na brisa quente, na caipirinha, na descontração do povo e fi nalmente na aposentadoria. É isso, ele precisa se aposentar. Precisa e merece, ora bolas! Afi nal ele foi um bom menino, um bom adulto – e não é o que todo o mundo diz – um bom velhinho?

    Então, merece um presente.

    Quando ele declarou que esta seria sua última viagem, seus auxiliares suplicaram em coro: –

    Pense nas crianças...

    Mas ele parecia irredutível.

    No Brasil, as mães ficaram pasmas quando o velho, de um salto, se levantou depois que um garoto gordo derrubou sorvete sobre ele e, visivelmente irritado, gritando que não aguentava mais se afastou do seu trono, deixando atrás de si um bando de meninos perplexos.

    A administração do shopping tentou intervir:

    – Pense nas crianças...

    Mas ele também parecia irredutível.

    por Magela Oliveira

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