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Janeiro/Março 2020
Janeiro/Março 2020

Mulher

Aprendendo com um ´susto`

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    Acredito que toda experiência que vem para nós é de crescimento e aprendizado e busco extrair o máximo de ensinamentos dela para, de fato, crescer. Vou compartilhar com vocês uma experiência que vivi e o aprendizado que estou tentando extrair da mesma.

    No início de Fevereiro, após atender alguns pacientes, comecei a preparar, com todo carinho, o almoço. Fui interrompida por uma dor de cabeça muito forte e duas horas depois,  estava com o lado direito paralisado, não conseguia enxergar, nem falar direito e estava internada. Pensou-se em AVC (hipótese, felizmente, descartada pelos exames), ATM… Na verdade, era uma nada letal, mas dolorosíssima, Nevralgia Aguda do Trigêmio (considerada pela medicina como uma das mais lascinantes dores).

    O “susto” me fez refletir e constatar que estou no caminho certo sobre minha filosofia de vida, que sempre compartilho com vocês em minha coluna. Se somos efêmeros e estamos aqui de passagem, para que tantas preocupações com o futuro (a vida vai seguir o mesmo ritmo sem você, ninguém é insubstituível), para que tantas preocupações com coisas “miúdas” (segundo os chineses, preocupações são juros altíssimos que pagamos por dívidas não contraídas), para que dar importância ao que não tem importância, para que tantas ambições com coisas mundanas (se na verdade valemos, exclusivamente, pelo que somos e não pelo que temos). Para que se preocupar tanto com a opinião do outro, para que tanta ansiedade e estresse, para que tantas mágoas e rancores, para que tanto preconceito e discriminação…

    Gosto de imaginar um juiz do outro lado, que nos avalia não pelos bens que acumulamos, mas pelo bem que fizemos, por nossas virtudes e boas ações. Este raciocínio me fez analisar sobre o que tenho feito pelo próximo e por minha evolução espiritual. E até sobre qual frase melhor me definiria em meu jazigo. Analisei também sobre como gostaria de ser lembrada por meu marido e filhas, e avaliei se já sou assim e no que tenho que melhorar. Pode parecer mórbido o tema, porém não há nada que nos faça valorizar mais a vida do que lembrar que podemos perdê-la.
    Nos momentos de dor que passei, foquei só no presente, não conseguia meditar, mas fortaleci a minha fé, pois, orava (fervorosamente) os três tipos de preces: de louvor, de agradecimento (por não ser nada sério) e de pedido (para que a dor parasse). Esta atitude me preenchia de paz.
    Fazendo uma mea culpa, entre os meus defeitos não constam a arrogância e a vaidade. Sou muito humilde com o próximo, porém, perplexa, descobri que não sou humilde comigo e com os meus limites. Agora continuo o tratamento em casa, usando remédios que me limitam no aspecto motor e cognitivo, evitando comidas sólidas e falar.

    O balanço que faço sobre “o susto” é positivo. A única coisa que lamentei foi interromper alguns cursos que já haviam começado (A Arte de Amadurecer e Qualidade de Vida) e adiar os cursos de Feng Shui e Apreciação Cinematográfica (este último, Laerte da Locadora e eu estávamos preparando, a duas mãos, com todo cuidado a seleção dos filmes). Porém os pontos positivos são muitos: recebi muito carinho dos parentes e amigos, percebi que estou certa nos pensamentos que tento viver (e que propago; inclusive pela Revista Foco), fortaleci minha fé, lembrei-me do óbvio – que somos mortais. Aprendi a ser humilde comigo mesma, pois, compreendi que eu, que sempre servi, também posso ser servida. Por ter que ficar calada aprendi a ouvir, pois, só consigo, de fato, ouvir o outro se eu parar de tagarelar. Percebi que todo mundo quer falar. Ninguém quer ouvir. Todos querem se apossar do ouvido do outro. Porém apenas 40% do que falamos é aproveitável.

    Sou boa aluna, pois, há 8 anos atrás tive dois cânceres de pele, em intervalos muito pequenos e quando apareceu o 3º, percebi  que era hora de mudar de vida, abandonar uma rotina estafante e recomeçar. Mudei para Passos. Hoje faço só o que gosto e posso “curtir” o que realmente importa.

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