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Atualidades

A partícula de Deus

  • ASSUNTO DE VESTIBULAR

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    Físicos anunciaram em julho passado a descoberta do bóson de Higgs, a peça que faltava para compor o “quebra-cabeça” que representa toda a matéria do Universo. A descoberta é importante porque explica como o átomo adquire massa e, assim, compõe toda a matéria. Por isso o bóson de Higgs foi chamado de “partícula de Deus”: porque ele explica como a ENERGIA pode se transformar em MATÉRIA. Não significa, entretanto, que agora sabemos perfeitamente como o Universo foi criado, muito me-nos que o homem esteja tentando se igualar a Deus.

    A partícula celestial é uma popstar da ciência. Procurada há mais de 40 anos, chegou a ser chamada de “o Santo Graal” da física. Mas a fama veio quando o cientista Leon Lederman resolveu escrever um livro. Sua intenção não era canonizar a partícula. Tanto que o título que Lederman propôs para o livro foi “A Partícula Maldita” em razão da dificuldade de encontrá-la. Mas os editores resolveram mudar o título. Agora “bóson de Higgs” está para “partícula de Deus” assim como Edson Arantes do Nascimento está para Pelé.

    Entretanto, muitas pessoas acreditam que os cientistas estariam tentando explicar a origem do Universo para desmistificar a criação divina. Esta discussão do papel de Deus no Universo é muito antiga. Ela surgiu muito antes da ciência. Quando ninguém entendia muito bem como funcionava a natureza, era fácil evocar alguma entidade sobrenatural para explicá-la. Por exemplo: para os gregos, era o Sol que girava em torno da Terra porque o Deus Hélio tinha uma carruagem que levava o Sol através do céu. Na época, era uma explicação perfeitamente razoável para um fenômeno que todas as pessoas podiam presenciar. Assim, havia o “Deus do vulcão”, o “Deus da chuva”, o “Deus do vento”, etc. Havia uma divinização da natureza. Com o passar do tempo houve uma racionalização, ou seja, o homem começou a entender a natureza não só através de explicações sobrenaturais, mas tentando também usar um pouco da razão para entender as causas das coisas que vemos ao nosso redor. E o produto disso, hoje, nós chamamos de CIÊNCIA. Nós estudamos ciência porque nós precisamos aprender sempre mais sobre a natureza do mundo que nos cerca, já que, de certa forma, é assim que aprendemos um pouco mais sobre quem somos.

    Em minha modesta opinião, o que existe de divino nesta história toda não é como é feita a transformação de energia em matéria, mas o fato de, a matéria, após bilhões de anos, ter evoluído a ponto de criar entidades capazes de se questionarem sobre a sua própria existência. Mas, nas palavras da raposa do livro O Pequeno Príncipe: “o essencial é invisível aos olhos”.

    por Murilo de Pádua Andrade Filho

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