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Janeiro/Março 2020
Janeiro/Março 2020

Homem

Vaticínio

  • Ele era um vidente. Um adivinho destes em quem ninguém acredita. A despeito de seus equívocos recorrentes, mantinha-se olhando para um futuro que só ele enxergava e narrava para a audiência divertida suas imprecisas visões.

    Autodenominava-se o mensageiro do futuro, o Nostradamus do terceiro milênio, ou, como o chamavam os mais jovens, Nostradamus 3.0.

    Embora as pessoas o cercassem apenas por diversão, ele não perdia uma oportunidade sequer de informá-las do futuro que as esperava. E as notícias não eram nada boas.

    Com a mão espalmada sobre os olhos, abaixava a cabeça e seus longos cabelos brancos cobriam-lhe a face e assim ele falava para quem quisesse ouvir:

    – Eis que vos digo, ímpios, o que só eu vi. Preparem-se, pois uma tragédia há de se abater sobre você no próximo parágrafo!

    Dizendo isso, bateu com seu cajado por três vezes na pedra antiga do calçamento da rua, sacramentando sua previsão. Enquanto as pessoas riam-se e debochavam do seu descabido vaticínio, o céu se fechou e o relâmpago, como lança incandescente desceu cortando o ar com toda a sua ira e o trovão ensurdecedor ribombou furioso. Ele e sua assistência olharam incrédulos pra cima e a mesma dúvida suscitou em suas mentes: Será que ele finalmente acertou uma? Mas este ainda é o mesmo parágrafo, notaram aliviados, que por sinal já vai muito longo. Então a tempestade inclemente desabou e todos saíram correndo em busca de abrigo, inclusive o Nostradamus 3.0, que parecia tão surpreso quanto seu público.

    Um novo parágrafo começa inocentemente, com seu recuo e letra maiúscula, alheio a tormenta que despenca no anterior quando um rumor assustadoramente grave sobe das profundezas e tudo fica em suspense. Uma frase vibra e seu suporte branco, tão seguro já não é mais estável como antes. As palavras começam a correr para todos os lados assustadas, deixando letras pelo caminho. Agora tudo se move e o caos se instala. É um textemoto! O tremor que é o temor de todo alfabeto. Chacoalhando, o texto se despedaça, as pavralas se misrutam umas com as otruas fornamdo vocálubos desconghemcydos, difghiculjtando a letfgytudsira, trnasfjuhndando a vdia do autrtojrhr numa louruca, conrpemontedo a clazera do toxte. Mutlads, as plavrs procram se proteger, mas tudo a sua volta está desabando e a organização do texto vai por água abaixo junto com os escombros que rolam das encostas. É uma calamidade.

    Ensopado e ileso, protegido no seu parágrafo, o profeta olha para baixo e vê letras por todos os lados e frases desconexas no rastro da destruição resistindo entre as ruínas do texto. Conster-nado, mal acredita no que vê, mas ele não desejou aquilo, apenas anteviu. Não tem culpa se a natureza às vezes dá um bocejo e arrasa civilizações. Olhando a paisagem desolada ele tem outra visão ainda mais clara que a anterior. Com a mão espalmada cobrindo os olhos ele diz:

    – O fim está próximo!

    As pessoas começam a rir. Mas ele insiste:

    – Vocês não percebem que a página está acabando? Eu não sou o mensageiro do fim do mun-do, sou o mensageiro do fim do texto. Seremos todos dizimados, nós e nossa pequena realidade contextual, assim que o leitor passar esta página.

    Houve um princípio de correria, desespero e ranger de dentes entre as pessoas, mas já era tarde demais...

    Ele bateu com o cajado por três vezes no chão.

    por Magela Oliveira

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