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Mulheres conquistam cada vez mais espaço

  • A chegada de uma mulher à Presidência da República no Brasil, a eleição da vereadora Tia Cenira para presidente da Câmara e a direção do Foro de Justiça nas mãos da juíza Patrícia Maria Oliveira Leite são sinais de que a sociedade está acabando com as restrições ao sexo feminino.

     

    A diretora do Foro de Justiça da Comarca de Passos, juíza Patrícia Leite, chegou a morar em nove cidades no início da carreira.
    A diretora do Foro de Justiça da Comarca de Passos, juíza Patrícia Leite, chegou a morar em nove cidades no início da carreira.

    A vereadora Cenira de Fátima Gomes Macedo, mais conhecida por Tia Cenira, e a juíza de direito Patrícia Maria Oliveira Leite enfrentaram muitos desafios para chegar aos cargos que ocupam hoje em Passos. Em 3 de janeiro, Tia Cenira foi escolhida por seus colegas parlamentares para presidir a Mesa Diretora da Câmara de Vereadores no biênio 2011-2012 e a juíza Patrícia Leite completa em março o primeiro dos dois anos como diretora do Foro de Justiça “Wellington Brandão”, da Comarca de Passos.

    A direção do Foro por uma mulher não é novidade na cidade, pois o cargo já esteve nas mãos de outras juízas, mas as dificuldades para atingir tal posto não são menores que as enfrentadas pelas mulheres que almejam algo mais na sociedade. “Infelizmente, a mulher ainda tem que se desdobrar para provar para a sociedade a sua capacidade intelectual no exercício de atividades que outrora eram destinadas exclusivamente aos homens”, analisa a diretora do Foro.

    A história da vereadora Tia Cenira também possui muitos componentes que reafirmam a força da mulher e mostram o que elas fizeram para chegar aonde chegaram. “A mulher está adquirindo o seu espaço, através de sua competência, avalia. “80% dos que me conhecem esperam de mim um bom trabalho. Então, eu acredito que as pessoas estão confiando na minha atuação”, acrescenta.

    Patrícia Leite e Tia Cenira estão juntas com outras mulheres que alcançaram postos importantes no Brasil e no mundo: Dilma Roussef, presidente do Brasil, Cristina Kirchner (Argentina), Angela Merkel (chanceler da Alemanha), Marta Suplicy (1ª vice-presidente do Senado Federal), Rose de Freitas (1ª vice-presidente da Câmara dos Deputados), Ellen Gracie, presidente do Supremo Tribunal Federal nos anos 2006 e 2007, dentre outras.


    Sacrifícios

    A presidente da Câmara dos Vereadores de Passos, Tia Cenira: “80% dos que me conhecem esperam de mim um bom trabalho”.
    A presidente da Câmara dos Vereadores de Passos, Tia Cenira: “80% dos que me conhecem esperam de mim um bom trabalho”.

    Aos 47 anos de idade, casada com o engenheiro Aleine Jehovah Rodrigues, mãe de Camila, Raíssa e Isabela, Patrícia Leite começou a carreira 17 anos atrás, como juíza de pequenas comarcas, a maioria de apenas uma vara – a de Passos tem oito.  Nascida em Franca (SP), mas de família de Delfinópolis (MG), a juíza superou muitas dificuldades familiares por causa do trabalho.

    “Em apenas um ano, mudamos três vezes, minhas filhas estudaram em três escolas diferentes”, diz, recordando que teve problemas emocionais por causa das inúmeras mudanças de cidade – nos primeiros anos de magistratura, Patrícia Leite morou em nove cidades. “Mas foram sacrifícios administrados, com apoio da família. Cheguei até a morar em hotel, sozinha. Em Governador Valadares, após ficar apenas um dia em um hotel, fui levada pelo simpático casal (Dª. Irma e senhor Nilton) que me dispensou toda atenção, amparo e afeto. Isso facilitou muito a saudade da família, principalmente das minhas filhas, ainda bem pequenas. O casal era amigo de um primo meu, também juiz no Estado do Tocantins e que comunicou minha estada na cidade tão logo soube da minha nomeação”, recorda.

    Formada técnica em química, Tia Cenira casou logo em seguida com o também químico Aloísio Eli de Macedo. O casal se mudou para Belo Horizonte, onde o marido foi trabalhar numa fábrica de papel. Depois, a família voltou para o Sul de Minas, em Poços de Caldas, onde Aloísio acabara de ser contratado por uma empresa da estatal Nuclebrás. Até então Tia Cenira, mãe de três filhos (Aloísio, Alessandro e Aline), se ocupava dos afazeres domésticos.

    O marido adoeceu e Tia Cenira voltou para sua terra natal e foi morar na Cohab II, onde comprara uma casa. Foi nessa comunidade que a futura vereadora deparou com a realidade social e começou a pensar numa forma de contribuir para melhorar as condições de vida das pessoas.

    Já trabalhando fora – como cozinheira -, Tia Cenira fez um segundo curso (magistério) e há 17 anos é professora da rede pública. Em 2008, elegeu-se vereadora pelo Partido da República e em janeiro ganhou a eleição para presidir o Poder Legislativo Municipal. “A Câmara, para mim, foi a ferramenta que encontrei para que eu pudesse exercer o trabalho social nas comunidades”, disse.

    A adolescência e juventude de Tia Cenira ocorreram numa época em que a sociedade ainda era patriarcal e o machismo predominava. Segundo ela, a maioria das mulheres mais avançadas formava-se professora. Em sua família não foi muito diferente. Em meio a vários parentes professores – até mesmo algumas irmãs -, a vereadora fez o curso técnico de química.

    Numa instituição em que predominam os homens – a única presidente da história da Câmara de Passos, antes de Tia Cenira, foi Antonina Lemos de Pádua (1962) -, a atual ocupante do cargo demonstra estar bastante confortável em sua posição. “Desconheço qualquer rejeição a mim, talvez por causa de minha posição firme desde o início do mandato…”, disse.

    O mesmo, porém, não ocorre na área da Justiça. Lidando com centenas de processos todos os anos, Patrícia Leite, depois de 17 anos ainda sente que existe um tratamento desigual ao sexo feminino. “No interrogatório, o réu costuma se virar para o advogado, para o promotor, menos para mim. Então, eu tinha, com jeito, de explicar para ele se dirigir a mim… Mas, aos poucos, vão se habituando a isso”, comenta.

    Projetos para a câmara e o foro

    A conquista do topo de duas importantes instituições como o Foro de Justiça e o Poder Legislativo Municipal não significa acomodação para a vereadora Tia Cenira, presidente da Casa, e nem para a juíza Patrícia Leite, diretora do Foro. Ambas têm projetos para as casas que administram, voltados ao interesse público, dos funcionários e das próprias instituições.

    Na Câmara, mudanças já ocorreram no horário de trabalho dos funcionários e projetos para maior utilização dos recursos e das dependências do legislativo estão sendo elaborados. “Vamos instalar um museu com fotos, vídeos e documentos da Câmara, abrir espaço para exposição de obras artísticas, divulgar as sessões legislativas na internet e implantar o programa ‘Escolas na Câmara’, para educar as crianças quanto à importância do legislativo”, disse a vereadora.

    A diretora do Foro já implantou algumas medidas administrativas, para tornar o serviço mais equilibrado e eficiente, com benefícios não só internos como também para toda a sociedade. Mas o grande projeto da juíza é elevar o nível da Comarca de Passos, igualando-a ao da capital, Belo Horizonte. “Meu desafio é tentar elevar a comarca para nível especial, equipará-la a Belo Horizonte.

    É uma ideia que tem possibilidade de sucesso, mas que depende de alianças e apoio para ser levada adiante”, disse.

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