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Janeiro/Março 2020
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Saúde

EMAGRECER - MITOS e VERDADES

  • Tassiane Alvarenga
  • A obesidade é uma epidemia no Brasil e no mundo, e dados da Vigitel publicados em 2019 apontam um crescimento em 60% desta doença nos últimos 10 anos, estando atualmente 19,8% dos brasileiros obesos, e mais da metade (55,7%) da nossa população com diagnóstico de sobrepeso. Isto se associa a um aumento significativo de outras comorbidades, tais como diabetes tipo 2 (DM2), hipertensão arterial sistêmica (HAS), doença cardiovascular, esteatose hepática (gordura no fígado), apneia do sono, osteoartrose, depressão, infertilidade e neoplasias como câncer de mama, intestino, endométrio e outras.

     

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    A Medicina é uma ciência de verdades transitórias, e no assunto EMAGRECER existem mais MITOS que VERDADES.
    Vamos mergulhar neste assunto?

     

    MITO: O tratamento da Obesidade é simples: Comer menos e Gastar mais!!!!

    A obesidade é um quebra-cabeça complexo, e a ciência ainda não tem ideia de quantas peças ele possui. Falar para um paciente obeso que ele precisa simplesmente parar de comer e se exercitar mais é como falar para um míope que ele tem que enxergar melhor.

    Não é uma questão apenas de esforço e força de vontade, mas uma questão de cada indivíduo, de sua genética, de seu comportamento, de sua biologia, de sua química, de seus hormônios da fome versus da saciedade, de sua alimentação, de seu exercício físico, de seu sono, de seu estresse, de suas influências sociais e amizades. Simplesmente considerar comer menos e se exercitar mais não é uma solução mágica, e muitos acreditam e defendem que é simples assim, contribuindo ainda mais para o preconceito e estigmatização dessa doença médica. Precisamos mudar nosso mindset (mentalidade)  para otimizar e humanizar o tratamento da obesidade.

     

    VERDADE: O nosso organismo tenta fazer tudo para engordar de novo?

     

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    Nossos corpos foram designados para armazenar gordura para tempos de escassez. Isso pode ter sido útil milhares de anos atrás, quando para sobreviver era necessário caçar e coletar alimentos. Hoje em dia, vivemos em um mundo onde há mais comida que o suficiente, alimentos com alta densidade calórica e facilmente disponíveis, o homem dorme menos, se tornou cada vez mais estressado, ansioso e sedentário.

    O hipotálamo é um “pequeno/grande” centro regulador de diversas funções vitais do nosso corpo, como temperatura, fome, sede, respiração, e também do apetite, do peso e do gasto energético. Para evitar que qualquer redução dos alimentos nos leve a morrer de desnutrição, ele controla nossa ingestão de calorias e nosso gasto energético. Esse centro funciona como se fosse uma balança interna (um sensor ou termômetro) que detecta alterações do nosso peso. De modo interessante, o hipotálamo tem memória em relação ao peso, e guarda como referência o nosso peso máximo (como em um HD de computador), sendo assim, entende que defender esse peso é necessário para manter o nosso corpo funcionando bem, caso contrário, a nossa saúde estaria em risco.

    Muitas vezes, o ser humano é capaz de burlar esse sistema, pois pode se alimentar mesmo sem sentir fome, apenas pelo prazer de comer mais (gula ou recompensa positiva) ou utilizar o alimento para promover o alívio de ansiedade, tensão, depressão ou qualquer outro sentimento.
    Por isso, quando começamos um plano de emagrecimento com dieta restritiva em calorias (seja ela qual for) e atividade física e  começamos a emagrecer, o hipotálamo envia sinais para o nosso corpo para aumentar o apetite e diminuir o metabolismo.

    Na busca por sobrevivência, o corpo é auxiliado por hormônios “teimosos” que fazem de tudo para estimular o reganho do peso perdido.
    Estudos evidenciam que para cada quilo de peso perdido, calcula-se uma redução do metabolismo de cerca de 30 kcal, e um aumento do apetite de aproximadamente 100 kcal! É o nosso próprio organismo tentando nos levar de novo ao peso original! O problema é que normalmente se pensa que o reganho foi “culpa” do tratamento que se fez, e não “culpa” da doença obesidade em si, que é crônica e recidivante. Ora, se paramos um tratamento de uma doença crônica como hipertensão, diabetes, colesterol, não é natural que o efeito do tratamento se perca? Por isso a obesidade deve ser tratada para sempre (pode ser com medicação ou sem, mas algum tratamento deve sempre existir).
     

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    VERDADE: Apesar do reconhecimento da obesidade como uma doença crônica grave, prevalente e de incidência crescente, ainda é extremamente escasso o arsenal terapêutico medicamentoso para essa patologia no nosso país.

     

    Temos atualmente disponíveis no mercado brasileiro apenas três medicamentos aprovados em bula para tratamento da obesidade e sobrepeso: sibutramina, orlistate, liraglutida. Além disso, não existe no Brasil, até os dias de hoje, qualquer combinação de medicações aprovada para o tratamento da obesidade que seja ao mesmo tempo segura e efetiva, apesar da percepção dos especialistas da área de que a melhor maneira de tratar a obesidade é, na maioria das vezes, a combinação de drogas com ação sinérgica, que possam controlar o apetite, promover a saciedade, aumentar o gasto energético basal ou atuar em mecanismos de perda de peso adicionais no organismo.

    De acordo com as Diretrizes Brasileiras para o Tratamento da Obesidade, o tratamento medicamentoso está indicado quando:

    • IMC *maior ou igual a 30 kg/m² ou

    • IMC *maior ou igual a 27 kg/m² na presença de comorbidades
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    Falha em perder peso com tratamento não farmacológico, ou seja, a história prévia do tratamento com dieta e exercício não funcionar.

     

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    Mas é importante lembrar que nenhuma pílula ou dieta mágica consegue consertar um estilo de vida ruim. A base de todo plano de emagrecimento, ou seja, os alicerces principais são:
    - Alimentação hipocalórica (baixa caloria) e balanceada de acordo com idade, atividade física, metabolismo do paciente;
    - Exercício físico;
    - Controle do estresse;
    - Sono adequado;
    - Busca de conexões sociais e da felicidade.


    E o remédio quando bem indicado: apenas como uma “muleta”, para controlar a fome, a gula e ansiedade!!!
    80% dos pacientes obesos, mesmo que altamente motivados, falham em conseguir perder peso apenas com atividade física, dieta e modificações do estilo de vida, sendo de grande importância que existam medicamentos seguros e eficazes para o tratamento desta doença.
    Muitos pacientes procuram um endocrinologista acreditando que existe uma fórmula mágica para emagrecer, mas isto não acontece. O emagrecimento é um desafio diário e uma verdadeira mudança de corpo e de mentalidade. O tratamento deve ser individualizado e sempre com acompanhamento médico, nutricional, psicólogos, educadores físicos, ou seja, um time a favor do paciente.

     

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    VERDADE: A melhor dieta não é “Low Carb ou Low Fat” mas a que você consegue seguir pela vida toda.

    A palavra dieta vem do Grego díaita, “modo ou método de viver, governar”.
    As evidências científicas mostram que “caloria é caloria”, ou seja, dietas com a mesma quantidade de calorias e de diferentes constituições, predominantemente carboidrato, gordura ou proteína, não determinam maior ou menor perda de peso.
    Portanto, o segredo realmente reside em como cortar calorias de uma maneira saudável e viável para a saúde. Cada paciente deve ser estimulado a encontrar o seu caminho, o seu possível e a sua dieta, “cada panela tem a sua tampa”. E lembre-se: comece como você quer continuar pois não somos apenas veganos, vegetarianos, “low carb” ou “low fat”... Somos resultado do momento, da companhia e da correria.

     

    MITO: Para emagrecer é fundamental comer de 3/3 horas.

    É mito  que comer de três em três horas ajuda a emagrecer. O que importa é o número de calorias totais e não o número de refeições. Por exemplo: Imagine que você tenha 1.500 reais para gastar, você pode fazer 5 compras de 300 reais ou 3 compras de 500 reais. Ou seja, você pode sim, comer de 3/3 horas ou fazer 3 refeições ao dia, o que importa é fazer um balanço negativo, ou seja, gerar um déficit calórico ao longo do dia.

     

    MITO: Tenho que perder muito peso (mais de 20 kg) para melhorar a saúde.

    Considera-se sucesso no tratamento da obesidade a habilidade de atingir e manter uma perda de peso clinicamente significativa que resulte em efeitos benéficos sobre doenças associadas, como diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia (colesterol alto). Uma perda de peso de 5-10% (ou seja, um paciente de 70 kg deve perder no mínimo 3,5-7 kg) é um critério mínimo de sucesso, pois leva à melhora destas doenças.

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    VERDADE: Existem várias estratégias para manter o peso perdido?

    As estratégias principais para a manutenção do peso perdido envolvem:

    Automonitorização: A balança é amiga ou inimiga? Pesquisas revelam que se pesar com frequência contribui para a manutenção do peso perdido. De acordo com um estudo publicado no New England Journal of Medicine, para quem emagreceu e está tentando manter peso, pesar-se regularmente (ao menos três vezes por semana) reduz pela metade a chance de recuperação de peso a longo prazo. A chave da manutenção é a eterna vigilância.
    Para quem está em fase de emagrecimento, no entanto, pesar-se demais não é bom, uma vez por semana é adequado, pois pequenas variações podem desanimar.
     

    Conhecer a caloria dos alimentos consumidos:
    Usar aplicativos como o Myfitnesspall e sempre consultar o rótulo dos alimentos.

    Usar pratos menores:
    Ao simplesmente usar um prato que seja 50% maior, você é encorajado a comer 20% mais. Para manter suas porções controladas, tente substituir pratos de 30 cm de diâmetro por pratos de 25 cm de diâmetro.

    Tenha alguém para dividir seu sucesso e suas recaídas:
    Existe uma maneira de você permanecer comprometido com seus objetivos, mesmo quando sua motivação está acabando? Em inglês o termo que se usa é “accountability”, que pode significar responsabilidade ou prestação de contas ou até “apoio”. Explicando melhor, no tratamento de doenças crônicas ou na mudança de hábitos e de estilo de vida, estudos sugerem que é super importante você ter alguém para relatar sua evolução, para ser seu guia e ponto de apoio. Tudo indica que ter alguém para relatar o seu caminho, mantém você mais consistente e motivado. E é por isso que a ciência considera essa tal da “accountability” tão poderosa.

    Ter o conceito de que a obesidade é uma doença e tentar criar outras válvulas de escape para os problemas do dia a dia que não seja a comida.
    Nesse contexto surge o conceito da alimentação com atenção plena (mindfuleating). Se alimentar com atenção plena é o ato de focar inteiramente em seu prato durante a refeição. Isso encoraja você a prestar mais atenção aos cheiros, sabores e texturas de seu alimento, assim como aos sinais de que seu corpo está saciado.

     

    A obesidade é uma doença real, que acomete pessoas reais, que merecem cuidados reais. E que após a leitura desta matéria, os médicos, os profissionais de saúde (nutricionistas, enfermeiros, educadores físicos e psicólogos) e os pacientes entendam e respeitem a obesidade como uma doença crônica, prevalente, recidivante e de difícil tratamento. Uma doença crônica é uma doença que dura muito tempo, é “um estado de saúde alterado que não pode ser curado com uma simples intervenção cirúrgica ou com um tratamento médico de curta duração”. Que toda consulta seja uma janela de oportunidade para encorajar um paciente obeso a mudar o estilo de vida, e a lutar contra a obesidade com todas as armas necessárias, com ciência e evidência.

    E que a mensagem principal seja que emagrecer não tem a ver apenas com perder quilos e quilos de peso, mas com ganhar toneladas e toneladas de vida.

     

    por Tassiane Alvarenga



     

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