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Mercantilização do tempo / O significado das selfies na sociedade contemporânea - por Ariana Pereira Germano

  • Ariana Pereira Germano
    Ariana Pereira Germano

    Mercantilização do tempo

    Com a terceira revolução industrial, notadamente houve uma interdependência entre os países, a que se chama globalização. Ao analisar a proporção dessa dependência, porém, evidencia-se que ela surge também entre cidades, bairros, pessoas e até mesmo entre as diversas funções que o indivíduo ocupa na sociedade. As palavras de ordem do modo de produção industrial vigente, o Toyotismo, são: “Time is money” (Tempo é dinheiro) e “Just in time” (Feito na hora). Tais conceitos geraram e aprofundaram a competitividade, inclusive entre a própria pessoa e seu ego.

     Na era pós-moderna atual, o ritmo de vida é frenético, uma vez que se tem muito o que fazer. Apesar de algumas tecnologias terem facilitado nossas atividades, como a telefonia e a internet móveis, o micro-ondas e o portão eletrônico, surgiram novos obstáculos como o trânsito caótico, a necessidade de aprimorar-se para não se tornar obsoleto e as redes sociais. Assim, embora a vida esteja amparada pela tecnologia, o tempo parece passar igualmente ou mais rápido em relação às décadas anteriores. Surge, pois, a síndrome da pressa.

    Segundo o filósofo Bauman, ela é uma doença que atinge pessoas na então chamada “modernidade líquida”. Tudo muda constantemente e em uma velocidade que o homem não consegue absorver e, numa tentativa frustrada de aproveitar tudo o que é oferecido, encontra-se num ciclo que lhe provoca estresse, ansiedade, insatisfação, insegurança e perda da qualidade de vida.

    É preciso reinterpretar a frase de Teofrasto “O tempo custa caro”, que inspirou Benjamin Franklin a afirmar “Tempo é dinheiro”. O adjetivo em questão não deve ser entendido como sinônimo de riqueza monetária e sim de riqueza para a vida. A partir daí, poder-se-á compreender que o dinheiro pode ser perdido ou ganhado, enquanto o tempo apenas se perde. O tempo deve, então, ser organizado para se obter um equilíbrio entre as demandas da vida pós-moderna e a demanda íntima de cada um.

     

     

    O significado das selfies na sociedade contemporânea

    A origem do autorretrato remonta ao início da civilização, momento em que o homem tentava se representar em paredes e depois em quadros. Na primeira metade do século XIX, várias pessoas fizeram autorretratos. Com o advento da fotografia e com o recurso “timer”, a pessoa conseguia se fotografar em segundos. A partir daí, surgiram as máquinas digitais, os smartphones, as câmeras frontais e os paus-de-selfie.

    É interessante notar que além do modo de tirar uma selfie (termo referente à autorretrato), o significado delas também se alterou. No início, tinha a função de registrar a lembrança de um momento, local e pessoa que o capturou, com o desejo de pausar o tempo ou até a possibilidade de transcender a morte. Atualmente, evidencia-se a importância da imagem social e a selfie é uma de suas mantenedoras a partir do compartilhamento nas redes sociais, como o Facebook e o Instagram.

    O problema surge quando a pessoa deixa de aproveitar o momento presente em busca de um mais duradouro, que pode ser revivido, num tempo posterior e quantas vezes desejar, através da selfie. E, além disso, postado, compartilhado, curtido e comentado por amigos. A questão nessa altura não é mais a imagem e sim a propagação dela: a vida social perde espaço para a repercussão social.

    É notório, então, que os autorretratos fazem parte da natureza do homem enquanto ser social e as selfies são apenas uma nova determinação e forma deles. O problema surge quando eles são associadas ao narcisismo extremo e à ressignificação de valores. Assim, é preciso saber controlar o impulso do exibicionismo e não permitir que a pessoa se torne, juntamente com os amigos das redes sociais, um mero espectador da própria vida.

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