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O processo de alfabetização: Razões e implicações de sua precocidade

  • "O olhar que aqui se move diz respeito à compreensão da infância como fase única na vida, que está sendo roubada, encurtada e esquecida em detrimento da alfabetização que vem acontecendo ainda na Educação Infantil."

    Vanessa Riboli Beirigo - Pedagoga,  Psicopedagoga Clínica e  Institucional, Especialista em  Educação Infantil e Alfabetização,  Neuropsicopedagoga Clínica  (SBNPp 00.337).
    Vanessa Riboli Beirigo
    Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional, Especialista em Educação Infantil e Alfabetização, Neuropsicopedagoga Clínica (SBNPp 00.337).

    Ler e escrever são instrumentos poderosos e importantes ensinados na escola. Escrever é muito mais do que um problema gráfico, assim como ler vai muito além do que reconhecer letras. São atividades cognitivas complexas que requerem, basicamente, pensamento reflexivo, a julgar pelas dificuldades que geram. 

    Embora a linguagem escrita faça parte da realidade das crianças, desde o nascimento destas, não se trata apenas de uma questão de experiência vivida. Para sua plena aquisição irão surgir diferenças: nas capacidades e na maturidade das crianças, na linguagem oral, na motivação, na estimulação ambiental, nos estilos de aprendizagem, na adaptação emocional e social. Contudo, torna-se imprescindível a necessidade de o educador compreender que os ritmos de aprendizagem são diferentes de uma criança para outra; que aprender a ler e a escrever é uma construção progressiva, mas não linear; que as crianças não são vazias, na verdade, estão cheias de ideias, hipóteses e convicções pessoais; que os seus erros devem ser vistos como uma amostra de seu grau de conhecimento e como um pré-requisito para chegar ao acerto; e que, a partir dessas premissas, a criança precisa ter a oportunidade de ser sujeito do seu conhecimento, adquirido como resultado de sua própria atividade.
     
    Na prática, diferente do discurso, no decorrer desse complexo processo de apropriação da lectoescrita, os erros ortográficos são tidos como dificuldades. Dessa forma, muitas patologias podem estar sendo artificialmente criadas a partir da visão do erro enquanto sintoma evidente de distúrbio, e não como parte construtiva do processo. “A produção escrita da criança pode ser um indício do quanto ela conseguiu apropriar-se do sistema ortográfico, se entendermos os “erros” como etapas da apropriação.” (ZORZI, 1998). Quando as crianças em processo de aprendizagem têm a chance de escrever de forma espontânea ou quando entram em contato com palavras pouco usuais, se confrontam com os princípios do sistema de escrita e cometem erros. Esses mesmos erros, vistos como “conflitos-obstáculos” no processo de domínio da escrita, tendem a se modificar e diminuir no desenrolar do próprio processo. 
     
    O processo de alfabetização

    Ter a oportunidade de usar a língua de forma diversificada é o caminho que pode conduzir a criança ao entendimento da necessidade de se escrever as palavras de determinadas formas, de acordo com as regras ortográficas. Porém, a prioridade pedagógica deve estar centrada nos usos sociais da língua escrita e não nos exercícios visando à automatização ou memorização dos significantes, assim como a atenção deve estar direcionada para o perigo da permanente correção ortográfica de forma exagerada quando a criança está iniciando a aprendizagem da escrita, uma vez que dominar a escrita não se limita a escrever as palavras corretamente. Portanto, a ortografia deve ser vista como um dos elementos que compõem o texto, mas não como o mais importante.

     
    O fato de que as crianças podem escrever e ler desde o início da escolaridade, também não significa que a aprendizagem possa ser acelerada ou antecipada, nem que se deve aspirar que todas as crianças aprendam de forma instantânea e precoce a ler e a escrever. A Educação Infantil não tem como objetivo que as crianças aprendam conhecimentos escolares próprios do Ensino Fundamental. Uma excessiva escolarização das crianças em detrimento do específico da Educação Infantil - o brinquedo, o movimento, a fantasia, a comunicação oral e corporal, a relação afetiva e social, os hábitos de cuidado pessoal – rouba e encurta as vivências próprias da infância. As crianças devem e podem ser estimuladas em relação às possibilidades de acesso à lectoescrita. “Mas, não atormentadas, nem classificadas e muito menos igualadas no quesito ritmo e capacidade de aprendizagem.” 
     
    Temos diante de nós a necessidade das escolas não se renderem à ditadura das políticas públicas e aos desejos “adultocêntricos” dos pais. Trata-se de ajudar a criança a transpor suas barreiras, acompanhar seu desenvolvimento e atender suas necessidades. Trata-se de respeitar a criança e considerar muito além do que preza a competitividade capitalista e a necessidade de ser o primeiro. Trata-se da oportunidade de formar seres humanos felizes e realizados. Compreender melhor essa “aceleração”, que as políticas públicas, as políticas educacionais e as famílias vêm fazendo, é uma tarefa imprescindível para entender como vem se constituindo a infância na sociedade contemporânea e como responder às questões complexas sobre a escolarização das nossas crianças neste século, quando nosso papel seria buscar e pensar modos de deixar as crianças serem sujeitos ativos na construção de seu aprendizado e de sua própria vida educacional.

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