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Nov/Dez 2019
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Educação

Girando a Terra ao contrário

  • De acordo com a visão clássica, o tempo flui inexoravelmente, fazendo com que passado, presente e futuro fiquem perfeitamente situados em uma escala linear e absoluta, orientada do passado para o futuro. O psiquismo humano e o próprio ritmo biológico do nosso metabolismo e envelhecimento estão condicionados a essa escala.

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    Sabemos e sentimos que ontem já passou, que hoje representa o agora e que amanhã traduz o que ainda está por vir. Sabemos e sentimos que uma hora corresponde a 1/24 do dia e que um mês representa 1/12 do ano...
     
    Tudo isso, porém, até Einstein que, em 1905, nos apresentou o conceito de um tempo relativo.
    E se eu tivesse poderes como os do Superman que, encarnado no cinema, em 1978, pelo então impecável Christopher Reeve, ressuscita sua amada vitimada por um soterramento, fazendo a Terra girar ao contrário?
     
    Pois é, isso fez o tempo voltar e o “Vingador” fortão e voador reviveu a Lois Lane (rsrs).
    Se eu pudesse girar a Terra ao contrário, talvez voltasse o tempo para antes do rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho. Que lindo seria reassistir do fim para o começo àquele vídeo exibido à exaustão na TV em que a parede da represa arrebenta vertendo os rejeitos de mineração sobre tantas pessoas! Se eu pudesse girar a Terra ao contrário, também voltaria o tempo para impedir o terrível acidente na usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, que, em 1986, produziu uma avassaladora destruição...
     
    Se eu pudesse girar a Terra ao contrário, talvez revisitasse algumas salas de aula nas quais em minha lida de 45 anos como professor de cursinhos pré-vestibulares convivi com tantos jovens focados, ávidos pelos meus ensinamentos, em total concentração. Ainda em tenra idade aqueles garotos e garotas já intuíam sua sina de almejar, batalhar e construir.
    Mas eu não posso girar a Terra ao contrário (sniff).
    Logo, nada poderei fazer por Brumadinho nem Chernobyl, mas consigo assistir hoje dessa ponta do tempo àqueles moços – ricos moços – encaminhados e realizados, segurando o bastão que outrora eu já segurei.
     
    Quanto orgulho! Abro as redes sociais e vejo palestras do fulano, defesas de tese do beltrano e convocação para funções de liderança do sicrano... Foi incrível testemunhar tudo isso com o tempo seguindo seu curso escolástico e natural: para frente.
    Volto às salas de aula, agora do grupo de escolas em que colaboro como diretor, e revejo outras carinhas de tenra idade igualmente sedentas por um futuro bacana. Mas, aqui no Brasil?
    Sim, aqui mesmo! Acredito piamente nesse grande rincão, repleto de oportunidades, que romperá, com certeza, com esse ciclo vicioso em que se meteu e emergirá resplandecente rumo ao futuro que merece.
     
    De nossas trincheiras estaremos lutando com altivez e energia: adentraremos o próximo ano letivo com um projeto pedagógico revitalizado, muito mais amplo, que terá o educando como verdadeiro protagonista do processo educacional. Ofereceremos um currículo mais plural com inserção de novas atividades e frentes de conhecimento, além de adaptar a avaliação escolar a esses novos ditames incluídos na BNCC (Base Nacional Comum Curricular, do MEC). Haveremos de ser vanguarda e referência de um ensino ainda mais moderno e significativo que contemplará as novas tecnologias e a sociedade emergente que sepultará velhas práticas e muitos paradigmas estabelecidos.
     
    Sim, eu não posso fazer a Terra girar ao contrário nem provocar voltas no tempo. Mas, com a equipe experiente e capacitada de que dispomos estaremos colaborando para que o país saia desse atoleiro causado por discursos fáceis e numerosos equívocos, o que nos relegou a patamares pífios no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes).
    Proporcionaremos, sim, uma educação básica consistente e bem estruturada – ensinos infantil, fundamental e médio –, sem o que de nada adiantam universidades sem razão, formadoras de analfabetos funcionais.
     
    por Prof. Ricardo Helou Doca

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