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Nov/Dez 2019
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Comunidade

O legado dos Irmãos de São Gabriel

  • A partida dos irmãos Rogério e João do Capp, no início deste ano, inaugurou uma nova realidade para a instituição que atua na educação de crianças e adolescentes carentes.

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    Irmãos João e Rogério da Congregação de São Gabriel.

     

    Presente em Passos desde 17 de novembro de 1969, o Centro de Aprendizagem Pró-Menor de Passos (Capp) aproxima-se dos 50 anos de trabalho que já beneficiou aproximadamente 13.500 crianças com formação educacional, profissional e humanística. Fundada pela Congregação Irmãos Monfortinos de São Gabriel, ou simplesmente Irmãos de São Gabriel, a instituição, no entanto, deixou Passos no início deste ano. Antes de partirem, os derradeiros missionários a atuarem na cidade – irmãos João e Rogério – foram homenageados com uma missa concelebrada por vários padres no ginásio do Capp.
    “Eu vou embora com tristeza, porque gostei de ficar aqui no Capp”, emociona-se Roger Drapeau Luiz Marcel, de 82 anos de idade, que no Brasil aportuguesou o nome para irmão Rogério. Ele trabalhou durante 48 anos em Passos, ensinando os meninos o ofício do artesanato em madeira e gesso.
     

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    Jean Carlos Ribeiro Duarte (vice-presidente), Sebastião Faria de Araújo (Presidente) e Cesar Luiz Mattar (gerente).

     

    A partida da Congregação de São Gabriel se deu pela falta de renovação da entidade, que já não tem irmãos em quantidade suficiente para se manter à frente de todas as comunidades. Como a de Passos está solidificada, a congregação resolveu priorizar os trabalhos onde a presença dos irmãos é mais necessária.
    Segundo explica o irmão Rogério, a comunidade passense já tem condições de, por conta própria, dar continuidade à missão. “A expectativa é muito boa para o Capp continuar acolhendo e educando as crianças”, disse.
    Francês como o irmão Rogério, o irmão João – nome de batismo, Jean Pierre Marie Andro, de 77 anos – atuou no setor administrativo da congregação em Passos por cerca de 20 anos, de 1985 ao início de 2004, quando partiu para Diamantina. Ele retornou a Passos em 2014, foi para Contagem no ano seguinte e novamente regressou em 2016, quando, no final, partiu de vez com o irmão Rogério.
    Em sua partida, irmão João falou de seus sentimentos após os anos que atuou na comunidade e de como os ex-alunos veem a instituição. “Deixo muita amizade com as pessoas e vou com a satisfação de ver os jovens voltando e expressando seus agradecimentos pelo que receberam do Capp, não apenas a formação profissional, mas a conduta de vida”, contou.

    Para homenagear os irmãos e agradecer à congregação, a comunidade do Capp, voluntários e colaboradores organizaram uma missa no início de janeiro, que foi concelebrada por padres de várias paróquias de Passos e de algumas cidades da região. Representando o povo passense, a Câmara de Vereadores inaugurou uma placa de reconhecimento à missão monfortina na cidade.
    A solenidade foi realizada logo após a missa, com participação de ex-alunos e ex-diretores do Capp, bem como de irmãos da comunidade de Contagem, para onde João e Rogério partiram.
     

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    “Hoje, eu não consigo imaginar Passos sem o Capp. Por ano, seriam em torno de 380 crianças que estariam em risco social, se não tivéssemos o Capp, o que poderia provocar uma ruptura e trazer problemas de ordem social gravíssimos.”
    (Dagoberto Soares)

     

    HERANÇA DOS IRMÃOS

    Os Irmãos de São Gabriel foram embora, mas deixaram para a cidade um exemplo de doação pela educação e formação humanística de crianças e adolescentes. Ao longo de 48 anos, foram 13.500 jovens beneficiados e que, hoje, são profissionais de diversas áreas, pais e mães de família, que aproveitaram a oportunidade de aprender as lições edificantes dos monfortinos (leia na página 30).
    No Capp, meninos e meninas, no contraturno do ensino fundamental, têm aulas de reforço escolar e ainda participam de uma série de atividades culturais, esportivas e pré-profissionalizantes, através das diversas oficinas, como marcenaria, elétrica, automecânica e serralheria. Os garotos também têm aulas básicas de música, artes e artesanato, além de informática, tear, costura, entre outras.
    Entretanto, esses ensinos não seriam tão importantes se não fossem as lições humanísticas dos irmãos, que educam as crianças e adolescentes quanto aos valores que formam cidadãos conscientes de suas responsabilidades sociais, conforme enfatizam o presidente e o vice-presidente do Capp, respectivamente, Sebastião Faria de Araújo e Jean Carlos Ribeiro Duarte.
    “O legado dos Irmãos de São Gabriel são a formação humanística e a profissionalização dos jovens que entram aqui ainda crianças e saem com valores como a honestidade, humildade, integridade, o compartilhamento que eles levam com eles, independente da profissão que vão exercer”, avalia Sebastião Faria.
    Segundo Jean Carlos, os missionários monfortinos conquistaram não apenas os educandos, mas também as pessoas que colaboram com a instituição – diretores, professores e funcionários. “Todos têm um verdadeiro amor pelo Capp, fazem uma doação de coração”, afirma.
     

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    Missa concelebrada por padres de várias paróquias de Passos e de algumas cidades da região.

     

    No cargo de presidente até o fim do ano passado, a professora Sílvia Mara Lemos Macedo se mantém colaborando pela continuidade da missão dos “Irmãos”, agora como coordenadora social. A professora trabalhou com os missionários por cerca de dez anos e também avalia que a história deles em Passos é um exemplo para todos que se interessam pela formação de bons cidadãos.
    “O que eles (Irmãos) deixaram para nós é um exemplo de vida, de humildade, de formação integral do ser humano. A doação é também um legado deles para nós, porque deixar seu país para vir ensinar no Brasil é um tipo de doação”, disse a ex-presidente.
    Atuante no Capp desde 1981 como membro da diretoria, o agropecuarista Dagoberto Soares lembra que cerca de 380 crianças são atendidas anualmente pela instituição e que, em relação a benefícios, eles se estendem a pelo menos 1.500 pessoas. Isso porque uma família tem quatro membros, em média, portanto, podendo aquele número ser multiplicado por quatro, para contabilizar os benefícios indiretos.
    “Hoje, eu não consigo imaginar Passos sem o Capp. Por ano, seriam em torno de 380 crianças que estariam em risco social, se não tivéssemos o Capp, o que poderia provocar uma ruptura e trazer problemas de ordem social gravíssimos”, comenta Dagoberto Soares.
     

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    Participação de ex-alunos e ex-diretores do Capp, bem como de irmãos da comunidade de Contagem.

     

    MISSÃO

    Fundada em 1715, na França, por São Luís de Monfort, com a missão de ensinar os pobres, a Congregação de São Gabriel, segundo ressaltam Sebastião Faria e Jean Carlos, não ensina uma religião específica para seus educandos, mas os valores humanísticos já mencionados e que são caros a todas as crenças. Faz parte da filosofia da entidade a iniciação dos jovens em atividades profissionais para que eles, quando saírem aos 17 anos, tenham conhecimento para ingressar em diversas áreas do mercado de trabalho.
    “Eu vejo o Capp como um exemplo de solução para o futuro, para tirar as crianças da rua. Aqui elas têm aulas de reforço escolar, assistência em saúde e as oficinas profissionalizantes”, explica Jean Carlos.

    Com a saída da Congregação de São Gabriel, a diretoria aguarda a conclusão do processo para que outra instituição, a Sociedade São Vicente de Paula, assuma a função de provedora do Capp. A transferência está sob análise na França, onde fica a sede vicentina.
    Até a definição, e depois, Sebastião Faria espera que a comunidade passense continue e aumente sua colaboração com a instituição. “O foco da diretoria são as crianças. Os funcionários são muito unidos, vestem a camisa pelo Capp. Enquanto não ocorre essa transição, vamos continuar dando o melhor com a expectativa até de aumentar o número de crianças acolhidas”, disse.
    “Nós precisamos que a sociedade se desperte para o Capp (e contribua mais), para que entenda que se trata de um patrimônio da comunidade. Se tivéssemos mais Capps, não precisaríamos de Casa do Menor”, observa Jean Carlos.

     

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    Ex aluno do CAPP , o ajudante de marceneiro Edson Júnior faz selfie para a FOCO.

     

    Acolhimento é legado dos irmãos

    Ex-alunos falam do significado do Capp para suas vidas, como o acolhimento e a educação para a responsabilidade como cidadãos
    Os Irmãos de São Gabriel deixaram o Centro de Aprendizagem Pró-Menor de Passos (Capp) em janeiro, encerrando uma história de 48 anos ensinando crianças e adolescentes carentes e que viviam em alta vulnerabilidade social. Nesse tempo, segundo a direção da instituição, já passaram pelo Capp cerca de 13.500 pessoas, entre meninos e meninas, que chegaram ainda crianças e só saíram aos 17 anos de idade.
    Segundo dois ex-alunos ouvidos pela Foco, a professora de matemática Núbia Simone Ribeiro e o ajudante de marcenaria Edson Júnior Lacerda, o Capp fez total diferença em suas vidas.
    Hoje casada e mãe de dois filhos, Núbia ingressou na instituição aos 11 anos de idade, época que a sua família, “muito pobre”, enfrentava sérios problemas, principalmente o alcoolismo do pai e o desemprego da mãe. Segundo ela, o Capp mudou o rumo de sua família. “Fui acolhida pelos irmãos, que arrumaram emprego para minha mãe e vagas para meus irmãos mais novos”, recorda.

    Até para a mais velha, que não podia ser aceita na instituição, por causa da idade, os irmãos deram apoio, deixando-a frequentar a oficina de costura, onde ela aprendeu o ofício com o qual passou a trabalhar.
    “Hoje, tudo que eu tenho, devo ao Capp, tanto na parte de realização

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    A professora de matemática Núbia Simone Ribeiro com filhos Lucas e Victor Hugo e o marido Hélder Almeida.

     

    pessoal quanto profissional. E vários ex-alunos seguiram o mesmo caminho”, afirmou.
    Também para Edson, de apenas 18 anos, saído há dois do Capp, a instituição representou a oportunidade de sua vida. Oportunidade esta que dois de seus irmãos não aproveitaram, conforme ele lamenta: “Infelizmente, eles não se adaptaram”.
    Edson, ao contrário, seguiu em frente e permaneceu no Capp por cerca de dez anos, de onde saiu com o ofício de marceneiro, que hoje ele exerce como ajudante numa fábrica de móveis planejados. “O Capp representou uma família para mim. Tudo que eu tenho na vida, eu devo a eles (Irmãos). Lá eu fiz amigos, eu considerava como um lar que te acolhe,  que cuida de você. Lá nós brincávamos e aprendíamos a ser crianças”, conta. 

    Enio Modesto

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