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Nov/Dez 2019
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Mulher

Ética x Corrupção

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    O filósofo grego Aristóteles em 384 a.C. ao se tornar preceptor de Alexandre “O Grande” começou a refletir sobre o papel e a responsabilidade dos governantes. Foi ele quem desenvolveu e usou pela primeira vez a palavra política, que é composta pelos radicais gregos “polis” (Cidade, Estado) e “etikus” (ética, exercício do bem).
    O tema o motivou de tal modo que escreveu oito livros sobre o assunto para orientar os futuros políticos.

     

    Para Aristóteles, a política é uma ciência prática que tem como meta o estudo, o conhecimento e a sabedoria para fundamentar e estruturar a ação dos administradores na gestão dos bens públicos. Em suas obras investiga as formas de governo e instituições necessárias para garantir uma vida segura, tranquila e feliz para os cidadãos dentro de um Estado forte.
    Já a palavra corrupção surgiu 200 anos depois em Roma. A mesma vem do latim “corruptus” que significa: ato de quebrar algo aos pedaços (deteriorar, apodrecer). No dicionário é definida como “... um meio ilegal de usar o poder e o dinheiro público em benefício próprio.”  Ou seja, o conceito corrupção veio para “quebrar”, literalmente, o conceito de política “aos pedaços” e deteriorar, decompor, estraçalhar o Estado.

    Parece familiar? Infelizmente estamos assistindo, perplexos, os escândalos que se sucedem, diariamente, na política brasileira e percebemos como os sábios, há dois mil anos, já alertavam e descreviam o que acontecia com a nação, cujos políticos não pensam no bem coletivo e sim, exclusivamente, no próprio bem. Que entram para a política não mais por idealismo, movidos pelo desejo de fazer a diferença e contribuir para o crescimento e bem-estar da nação, mas sim por verem na política um meio de ter acesso rápido ao poder e ao dinheiro público.
    Por vinte e um anos (1964 a 1985) fomos governados por uma ditadura e nem tomávamos conhecimento do que acontecia no “país do futuro”. Felizmente, hoje, temos uma imprensa livre que nos informa “ao vivo” sobre o que se passa nos bastidores do Planalto. Acredito ser desnecessário falar dos escândalos que tomamos conhecimento nos últimos anos, porém gostaria de ressaltar o “Mensalão” e a “Operação Lavajato” que revelaram o que os políticos faziam para serem eleitos e como “comprovam” aliados. Também revelaram como funcionavam os esquemas de lavagem e desvio de dinheiro público.

    O “Mensalão” condenou 24 pessoas e a “Operação Lavajato”, em dois anos de funcionamento, já recuperou 2,4 bilhões para os cofres públicos e pede um ressarcimento de 21,8 bilhões. Já decretou 37 ações penais contra 179 pessoas, 6 ações de improbidade contra 49 pessoas e condenou 95 pessoas. Neste período vimos empreiteiros, ministros, governadores, senadores, deputados, tesoureiros e marqueteiros de partidos sendo presos. E percebemos que até mesmo o alto escalão do governo pode estar envolvido em algum dos esquemas.
    Nossa decepção é muito grande, porém, felizmente, o Judiciário e a Polícia Federal têm superado nossas expectativas e têm trabalhado como nunca. Inclusive o Ministério Público Federal, já tomou a frente e depois de um longo estudo sobre o combate à corrupção em vários países, perceberam a necessidade de criminalizar o caixa dois e o desvio e lavagem de dinheiro público. O resultado foi uma lista com as 10 medidas de combate à corrupção que já atingiu o número de assinaturas exigidas para ser levada ao Congresso Nacional.

    Neste período percebemos que, infelizmente, os conceitos e valores que deveriam guiar os nossos políticos foram esquecidos e têm que ser resgatados urgentemente, pois ao invés de termos um Estado Ético o mesmo está se transformando em um caso de polícia.
    A sociedade brasileira quer e merece algo mais profundo que a simples prisão dos políticos envolvidos. Queremos ver toda esta crise sendo transformada em oportunidade de reavaliação e reelaboração do processo político. Queremos ver a ética vencer a corrupção.

    por Gizele Rabelo

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