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Nov/Dez 2019
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Mulher

Recomeçar

  • Desde a infância somos "treinados" pelas transformações da vida a recomeçar, a seguir em frente, terminar um ciclo e começar outro.

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    Nascemos, completamente, dependentes dos nossos pais e aos poucos vamos crescendo, aprendendo a andar, a fazer a nossa higiene, a falar, a escrever, a ler... a morar sozinho, a ter uma profissão, a criar uma família, a cuidar dos nossos filhos... e daí a pouco são nossos filhos que entram na engrenagem da vida e repetem os mesmos ciclos que nós.
    Estamos conscientes, desde pequenos, que vivemos em um mundo impermanente, regido por mudanças e desafios. Assim sendo, temos que ser flexíveis e nos adaptar a ele e perceber que os sonhos, as metas, as certezas não são estáticos, têm data de validade e têm que ser revistos, reelaborados sempre, pois a vida só acaba quando acaba e enquanto estivermos vivos teremos desafios a serem enfrentados e superados.

    Para Heidegger e Nietzsche o sentido primordial da vida é a transformação, pois é ela que dá significado e sentido à nossa existência. Nietzsche comenta que “o objetivo da vida do homem é superar-se e libertar-se do cansaço de existir e ir além de si mesmo, transformar-se e recomeçar”. Recomeçar... abandonar os nossos padrões, aprender com os nossos erros e escrever uma nova história... recuperando o nosso papel na trama da vida. Bonito, não? Porém na prática é muito complexo. Muitos, inconscientemente, preferem a inércia, a submissão, os grilhões, o sofrimento conhecido à ousadia da mudança e acomodam-se. Heidegger alerta: “às vezes temos que deixar que o tédio,  a manifestação do abismo, do nada, nos tome para recomeçar”. Infelizmente... temos que chegar ao fundo do poço para buscar a superfície e perceber que o caminho que estávamos trilhando não era o melhor, e rever nossas escolhas, nossos padrões... lembrando que começar de novo não é inventar um novo padrão, mas sim reconhecer nossas falhas, fraquezas, limites, entraves... e, principalmente, aprender as lições da vida, não repetirmos os mesmos erros, não nos darmos por vencidos... e prosseguir...

    Gal Costa em sua música “Vou Recomeçar” fala sobre esta situação “vou mudar daqui pra frente. E a minha escrita vai ser muito diferente. A filosofia vou mudar em minha mente, pois agora vou recomeçar”. Lindo, não? Realmente recomeçar e rever os paradigmas, mudar e dar uma nova chance a nós mesmos. Millan Kundera comenta: “O rascunho da vida é a própria vida”. Já que não podemos passá-la a limpo, não podemos voltar atrás e fazer um novo começo, temos que prosseguir e construir com as nossas experiências e superações uma nova história. Não se esquecendo que o que passou, passou. Nos trouxe até onde estamos e fez com que nos tornássemos quem somos, mas é passado. O que importa é o que podemos fazer a partir de agora.

    Pessoalmente sou muito aberta a mudanças, gosto da energia, do desafio de encerrar um ciclo e recomeçar... conhecer uma nova cidade, um novo ambiente de trabalho, novos amigos, uma nova casa... Já mudei muito e no final o que levamos de cada cidade que passamos é o “patrimônio imaterial” de amigos que conquistamos. Acredito que com a maturidade selecionamos as pessoas com quem, voluntariamente, queremos conviver e construímos amizades mais sólidas e verdadeiras. Nesse sentido Passos foi prodigiosa, tive a sorte de conhecer pessoas muito especiais que sempre farão parte da minha vida.
    Estou mudando para Poços de Caldas, e começando um novo ciclo e gostaria (na minha última coluna) de agradecer e homenagear as muitas amigas que conquistei nessa querida cidade e dizer que a minha nova casa e o meu coração estarão sempre abertos para elas e que estaremos sempre em contato.

    Obs: Quero agradecer a vocês também leitores da revista FOCO pelo carinho e reconhecimento nesses dez anos que escrevi para a revista.
    Abraços a todos,

    Gizele Rabelo 

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