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Mulher

Quantidade ou qualidade de informação?

  • Em 1965 o semiólogo italiano Umberto Eco acreditava que o acesso irrestrito às informações (livros, jornais, documentos, arquivos, bibliotecas...) não formava, necessariamente, um público crítico e sábio, mas sim superficial.

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    Quarenta anos depois, com o avanço da internet, das redes sociais e o acesso fácil à informação, percebemos que ele, infelizmente, estava certo.
     
     
    Sempre fui fã de bibliotecas e de 1977 a 1985 ganhei o prêmio de maior leitora da biblioteca da minha cidade, com uma média de mais ou menos 80 livros por ano. Depois, quando fui para a Universidade, a minha maior promoção foi, durante o mestrado, ter acesso ao interior da biblioteca e poder caminhar por corredores de estantes e folhear os livros antes de escolhê-los. 
     
    Naquela época, o arquivo da Universidade Federal de Viçosa era bem restrito na área de humanas, e eu imaginava como seria bom ter acesso aos arquivos e documentos de outras universidades. Hoje, em qualquer lugar, a qualquer hora, com apenas um clique podemos fazer pesquisa sobre tudo e ter acesso a arquivos e teses até de universidades do exterior. A internet nos disponibiliza todo tipo de informação (filosofia, artes, literatura, cinema, notícias, política, viagens, história...) depende exclusivamente da área de interesse do usuário. Porém, pasmem, muitos jovens ao invés de usar a internet para ampliar seus horizontes e cultura se restringem às redes sociais.
     
    Segundo pesquisas de A. Gassaly em 2008 as pessoas já tinham quatro vezes mais acesso às informações que há 30 anos, porém, a pesquisa também revelava que o acesso irrestrito à internet está afetando e mudando a forma de agir, interagir, pensar, refletir e buscar dos jovens a ponto de tornar parte da nova geração (que cresceu diante da telinha) menos interessada e capaz de absorver informações mais complexas e extensas como livros, jornais, filmes e revistas especializadas... pois o excesso de acesso às redes sociais e às informações tira o foco e mina a capacidade de concentração dos usuários.
     
    Ou dito de outro modo, o aumento do volume de informação não tornou as novas gerações mais sábias, cultas, interessadas... Volto a um exemplo dado por Umberto Eco na década de 70 que ilustra bem a situação. Segundo ele, seu avô era um dos homens mais cultos que ele conheceu, ele era um homem humilde que morava no campo e não teve uma educação formal e que tinha lido, relido, refletido, saboreado... apenas 3 livros (um bom compêndio de filosofia, outro de história e geografia e a Bíblia) e os sabia de cor e era capaz de analisar e adequar o conteúdo dos mesmos à todas as situações cotidianas do seu vasto mundo. Ou seja, em alguns casos, menos é mais.
     
    Hoje como temos acesso a um volume muito grande de informações tendemos a ler tudo superficialmente e procurar por novas informações ao invés de assimilar e priorizar os dados já disponíveis.
    Segundo Nicolas Car: “Por séculos os livros protegeram nosso cérebro de distrações ao fazer nossas mentes focar em um tema por vez. Hoje, o uso irrestrito do celular e do computador tem impedido de usar as nossas habilidades cognitivas específicas e como sabemos sobre a ciência do cérebro o que você não usa, acaba perdendo”. Há pessoas que ficam o tempo todo online e se ficarem sem suas fontes sentem um profundo tédio. Cientistas comprovam que o fluxo constante de informações causa um impulso primitivo de resposta às oportunidades, que provoca excitação (liberação de dopamina), que vicia.
     
    A geração “multitarefária” está acostumada a ter tudo nas mãos, pronto e mastigado: da comida aos resumos de livros, notícias... Ao crescerem, terá menos senso crítico, independência e desaprenderão a saborear, lentamente, uma fruta, um livro, uma música, um filme, um jornal, uma conversa olhando nos olhos do interlocutor.
     
    Temos que urgentemente avaliar, reavaliar e refletir sobre a utilização dos celulares e computadores e compreender que eles são apenas ferramentas que devem ser usadas em prol do nosso crescimento e bem-estar, porém os mesmos não podem tomar tanto o nosso precioso tempo. Pessoas que ficam dependentes das redes perdem o senso crítico, por isso quem está convivendo com elas tem que procurar alertá-las e, se necessário, procurar ajuda.
     
    TEMOS QUE CONSCIENTIZÁ-LAS DE QUE VIVER, DE FATO, É MUITO MAIS IMPORTANTE QUE MOSTRAR QUE SE VIVE.
     
     
    por Gizele Rabelo

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