Última Edição
Nov/Dez 2019
 Nov/Dez 2019

Mulher

Perto de quem está longe e longe de quem está perto

  • Nasci na década de 60 e o mundo no qual passei a infância já não existe mais. Na época, em uma cidade do interior, muitos pais de colegas minhas, que estudavam em colégio de freiras (particular), não tinham carro, não viajavam nas férias, não assinavam jornais, não possuíam câmeras fotográficas, não possuíam telefone... A comunicação com as pessoas queridas que moravam fora era feita através de cartas e telegramas...

    .

     

    A linha telefônica era cara e quem possuía mais de uma chegava a alugar a segunda por um salário mínimo. O telefone ficava em um móvel próprio para ele, em destaque, na sala de visita e era usado com parcimônia, interurbanos só nos finais de semana. Quando meu marido mudou-se para B.H. para fazer o colegial, cheguei a sonhar com um telefone (do futuro) que pudesse ser ligado à T.V. para nos vermos enquanto conversávamos.

    Pois bem, o futuro chegou e em alguns pontos a tecnologia e a ciência já superam a ficção científica. Hoje, recebemos informações em tempo real, as casas já não possuem apenas um computador e um telefone, e sim, um exclusivo para cada usuário. O que a meu ver era privado hoje é postado em todas as redes sociais sem nenhum pudor.

    A maneira como as pessoas se comunicam online usando o Twitter, o Facebook, o WhatsApp... pode ser visto como uma forma de loucura moderna. Porém, apesar de todo acesso à informação, as pessoas nunca foram tão superficiais, e, apesar de toda a facilidade de comunicação, as pessoas nunca foram tão solitárias. Na verdade, a tecnologia, aparentemente, aproxima os que estão distantes e afastam os que estão próximos.

    Resisti muito para entrar no Facebook e só o fiz em 2013 quando as minhas filhas foram morar fora para facilitar a interação. No primeiro mês cheguei a me encantar com as possibilidades criadas pela rede, foi como entrar em um túnel do tempo. Comecei a encontrar amigos de infância, colegas da faculdade, parentes que não via há séculos... Sentia como se tivesse sido transportada para uma existência virtual veloz, conectada... Vi no face um lugar promissor para trocar ideias, informações, textos... Porém, a lua de mel durou pouco. De repente era tanta gente, que eu mal conhecia, solicitando amizade e expondo suas vidas na ânsia de serem curtidas pelo maior número possível de pessoas, que me retraí, pois valorizo muito a minha privacidade e não compactuei com o culto à personalidade, às mensagens superficiais, às obviedades políticas... E passei a me questionar... Por que preciso encontrar virtualmente com tanta gente que eu mal conheço (e que nem gostaria de encontrar pessoalmente) e ouvir suas previsíveis e superficiais opiniões sobre política, costume, religião, ecologia e pior, receber mensagens infantis com gatinhos, cachorrinhos, coraçõezinhos...?

    Valorizo muito os encontros com amigos, a conversa olho no olho (profunda), um debate de ideias construtivo, um telefonema para matar a saudade, as conversas durante as refeições em família... Fico perplexa quando vou a um restaurante e vejo famílias fazendo as refeições sem conversarem uns com os outros, cada um no seu celular, cada um no seu mundo, conectados com os distantes e distantes de quem está ao seu lado. E percebo que a tecnologia avançou, mas a humanidade continua a mesma e, principalmente, não está usando a mesma para evoluir, crescer, aumentar seus conhecimentos, horizontes... mas sim restringindo-os a uma tela de mais ou menos 6 cm por 12 cm.
     

    © 2019 Foco Magazine. Todos os direitos resevados.