Última Edição
Nov/Dez 2019
 Nov/Dez 2019

Homem

Nhoque

  • .

    Pegue a batata, cozinhe a batata, esprema a batata, acrescente ovo e um pouco de farinha de trigo, faça uma cobrinha e corte em pedacinhos e cozinhe tudo de novo. Pronto.
    Pronto?

    O jantar estava marcado há dias e o cardápio previamente anunciado:

    Nhoque ao pesto com molho de gorgonzola, uma receita saboreada em um pequeno e despretensioso restaurante de Veneza, situado em uma ruazinha transversal, onde entraram por acaso em sua última passagem pela Europa e, surpreendentemente, experimentaram os melhores sabores de toda a viagem.

    Os amigos convidados salivavam enquanto aguardavam o dia do jantar, que ainda teria, para acompanhar o prato principal, dando um toque de sofisticação ao encontro, um tinto francês e um italiano.

    Os dois casais chegaram na hora marcada e foram educadamente recebidos pelos filhos dos anfitriões:

    – Vamos entrar, vamos sentar, aguardem um pouquinho, meu pai e minha mãe já vêem.

    Os convidados estranharam a ausência dos donos da casa, pois quase sempre são recebidos na cozinha, com o excelente cozinheiro envergando seu avental de mestre cuca e ocupado com os mínimos detalhes de suas receitas.

    Havia suspense no ar. Só suspense, nada dos aromas do pesto ou do gorgonzola. Mas antes que os convidados pudessem conjeturar sobre o que estaria acontecendo, surge o casal, sorridente, dando as boas vindas, abrindo imediatamente a primeira cerveja.

    Uai, não era vinho? Definitivamente algo está errado. Ninguém está cozinhando e os vinhos continuam aprisionados em suas garrafas onde só o tempo penetra, para depois, líquido e vermelho, fluir finalmente liberto, surpreendendo paladares.

    Mas nessas plagas tropicais, uma Skol estupidamente gelada e de uma boa safra, como aquela do mês passado, com seu buquê exalando o aroma do lúpulo, com um sutil toque frutado, sua densa espuma branca isolando o precioso líquido dourado do oxigênio, preservando-o da danosa oxidação que poderia comprometer o delicado equilíbrio alterando seu sabor, também é muito bem vinda.

    Então, saúde! E os copos se tocam e brindando a amizade ninguém questiona mais nada e vão ver as fotos da viagem, que ficaram sensacionais.

    As receitas mais simples são as mais perigosas. Ainda com o paladar daquele nhoque latente na memória, o cozinheiro lutara, antes da chegada dos amigos, para emular o sabor e a textura da receita, mas a massa, aparentemente tão simples, teimava em desandar e em várias tentativas as coisas só pioravam e a hora dos convidados chegarem se aproximava aumentando sua aflição. Desesperado ele pensou em pular pela janela e acabar com aquela agonia, mas sua esposa o impediu sugerindo uma alternativa menos dramática: Eles podiam apagar todas as luzes e se ficassem quietinhos, os convidados iam pensar que eles tinham se esquecido do jantar e acabariam indo embora e tudo se resolveria.

    – Não, dissera ele, é uma questão de honra. E colocou mais farinha na massa, na esperança de acertar o ponto, mas quando provou, decidiu que a janela ainda era a melhor opção. Seu sacrifício seria menor que o constrangimento de admitir que fora derrotado pelas batatas.

    O interfone tocou. Eram os inimigos. Ele estava cercado.

    E trouxeram reforços, pois vieram com os filhos.

    O que podia fazer? São nos momentos extremos que um homem mostra do que ele é feito. Não podia se entregar!

    É isso, pensou. Entrega.

    – Ligue no disk, ordenou.

    E foi se livrar dos despojos da batalha para recepcionar os amigos.

    Terminaram a noite degustando uma deliciosa parmegiana e quando um dos comensais perguntou sobre o nhoque, com muita educação e seu característico bom humor, sugeriu que fossem todos plantar batatas.

    .
    .

    © 2019 Foco Magazine. Todos os direitos resevados.